Crise do Aço: Brasil prepara reação após avanço chinês e tarifaço dos EUA
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Volta Redonda – A indústria siderúrgica brasileira atravessa um dos períodos mais críticos das últimas décadas. A adoção de sobretaxas pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, somada ao aumento expressivo das importações de aço chinês vendido com prática de dumping, ampliou a pressão sobre empresas do setor e acendeu alerta em governos municipais, estaduais e na União.
A estratégia em estudo pelo governo federal prevê elevação das tarifas de importação já no início de 2026, com foco no aço proveniente da China — hoje comercializado no Brasil com margens de dumping que chegam a 103%. A medida tem caráter duplo: reforçar a proteção às siderúrgicas nacionais e gerar até R$ 14 bilhões para ajudar no fechamento do Orçamento da União.
A necessidade fiscal é imediata. Para atingir a meta de resultado primário zero estabelecida pela LDO de 2025, o governo ainda precisa de R$ 27,1 bilhões apenas no último trimestre de 2025.
Importação dispara e pressiona siderúrgicas brasileiras
O fluxo de aço chinês para o Brasil cresceu de maneira acelerada neste ano. No primeiro trimestre, as importações de aço plano subiram 42% na comparação anual, e alguns tipos de produtos registraram 91,5% de participação chinesa no total importado.
As siderúrgicas estimam que o país encerrará 2025 com 6,3 milhões de toneladas de aço importado — número considerado recorde e que reduz a utilização da capacidade instalada nacional.
Entidades do setor, como a Aço Brasil, apontam que a concorrência com o aço chinês ocorre em condições assimétricas, com subsídios e políticas industriais que tornam impossível disputar preços de forma equilibrada. Com margens comprimidas e queda na demanda interna, as empresas passaram a reavaliar investimentos e projetos de expansão.
A entidade classifica o cenário atual como um “surto de importação”, com efeitos diretos sobre empregos, produção e arrecadação tributária — especialmente em polos industriais como o Sul Fluminense, que concentra algumas das maiores plantas siderúrgicas do país.
Carros chineses elétricos e aço ‘barato’ sufocam indústria brasileira
Imaginando um cenário mais promissor, a equipe econômica brasileira avalia a elevação no imposto de importação para carros e aço, por exemplo. Ambos os setores sofrem com uma “invasão” de produtos chineses.
A chegada massiva de carros elétricos chineses ao Brasil está transformando a indústria automotiva nacional, gerando uma forte concorrência por meio de preços competitivos e tecnologia avançada. O impacto é duplo: por um lado, estimula a eletrificação do mercado; por outro, pressiona as montadoras estabelecidas e o governo a se adaptarem rapidamente.
Marcas como BYD e GWM conquistaram rapidamente uma participação de mercado significativa, com a BYD detendo cerca de 75% das vendas de veículos elétricos (EVs) no Brasil em 2025. Essa “invasão” forçou as montadoras tradicionais a repensar suas estratégias, inclusive na guerra de preços.
As empresas estão construindo ou adaptando fábricas na Bahia e em São Paulo, respectivamente, o que representa um investimento bilionário e a criação de milhares de empregos diretos e indiretos no país. Em contrapartida, segundo dados recentes, o superávit da balança comercial chinesa, nos 11 meses deste ano, foi de U$ 1 trilhão.
Nessa seara, o Brasil se tornou um dos maiores mercados do mundo para carros eletrificados chineses, superando a Rússia e a Bélgica. Recentemente, temendo uma invasão dos asiáticos, os Estados Unidos elevaram suas tarifas para mais de 100%.
Queda nas exportações afeta mercado doméstico
A queda nas exportações de aço para os EUA afetou de forma ímpar a indústria nacional, onde o Instituto Aço Brasil previu uma queda de 0,6% na produção de aço bruto em 2025. Aliado a essa situação, a indústria brasileira tem se mostrado otimista para com as ações que vêm sendo adotadas pelos negociadores brasileiros com o comércio exterior.
O Brasil utiliza cotas, para que quando o volume importado ultrapassa os limites, a alíquota de 25% é aplicada para diversos tipos de produtos siderúrgicos. Esse percentual é especialmente para volumes acima das cotas, visando proteger a indústria nacional, embora produtos dentro destes limites possam ter tarifas menores (9% a 16%), com a medida sendo prorrogada para 2025 e abrangendo vários produtos.
A medida atende a pleitos apresentados pela Abimetal-Sicetel (Associação Brasileira da Indústria Processadora de Aço e Sindicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos), uma das entidades que representa a indústria processadora de aço no Brasil.
A prorrogação incide sobre seis produtos fabricados por empresas representadas pela organização: arames de aço de baixo e médio teor de carbono galvanizados, arames de aço de alto teor de carbono revestidos de outros metais comuns, arames de outras ligas de aço, material para andaimes, cofragens ou escoramentos, grades e redes galvanizadas soldadas nos pontos de interseção e pregos de aço.
Especialistas do setor preveem uma recuperação de 1,3% prevista para 2026, elevando a demanda global para 1,772 milhões de toneladas. A demanda global por aço em 2025 deverá permanecer estável em comparação com 2024, atingindo cerca de 1,750 milhão de toneladas.
IPEA prevê risco
Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que essa tarifa de 25% imposta pelos EUA pode gerar queda de 2,19% da produção, contração de 11,27% das exportações do metal e redução de 1,09% das importações. Isso significa que o Brasil terá perda de exportação equivalente a US$ 1,5 bilhão e uma queda de produção de quase 700 mil toneladas em 2025.
“Isso se deve ao fato de que os Estados Unidos são um mercado muito importante para o aço brasileiro. Em 2024, último dado de ano fechado que nós temos, eles foram destino de mais da metade das exportações. Portanto, é um mercado crucial de aço para o Brasil e daí a importância de se lidar com essa questão”, explica Fernando Ribeiro, coordenador de Relações Econômicas Internacionais do Ipea e autor do estudo.
Apesar da repercussão significativa para o setor, em termos macroeconômicos o impacto é baixo. O trabalho prevê queda de apenas 0,01% do PIB e de 0,03% das exportações totais, com ganho de saldo na balança comercial de US$ 390 milhões, já que a redução da atividade econômica também levará à redução nas importações (0,26%).
Agatha Amorim
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