Alee e Klisman mergulham em amores fracassados no álbum “Para: Todas Que Fingi Amar”

Alee e Klisman
Foto: @yago_davila

Em um momento em que o trap brasileiro continua expandindo seus limites estéticos, os rappers Alee e Klisman decidiram olhar para dentro. O álbum colaborativo “Para: Todas Que Fingi Amar”, lançado com 14 faixas, parte de uma premissa aparentemente simples: falar sobre relacionamentos. Porém, eles transformam essa ideia em algo mais amplo, apresentando um retrato emocional de uma geração que ainda está aprendendo a lidar com afeto, frustração e vulnerabilidade.

Para além de um disco sobre amor, o projeto nasce da tentativa de compreender as falhas que existem no caminho entre conhecer alguém e conseguir, de fato, amar. Ao TMDQA!, Alee explica que o ponto de partida da narrativa é justamente esse estado de instabilidade emocional.

“O disco tem um ponto de vista sobre um relacionamento que está chegando ao fim. É sobre o quanto uma pessoa não está com saúde mental para entrar num relacionamento e entra mesmo assim. Por isso várias músicas dão a entender que o relacionamento está desgastado, porque o personagem não cuidou da própria saúde mental pra entrar num novo relacionamento”, afirma o rapper.

Esse olhar mais confessional aparece também na estrutura do álbum. Tirando a intro, cada faixa leva o nome de uma mulher, criando uma sequência de personagens que ajudam a contar essa história fragmentada de encontros, desencontros e tentativas frustradas de construir vínculos. Apesar da aparência autobiográfica, os artistas explicam que essas figuras não representam pessoas específicas. São, na verdade, símbolos narrativos.

“O álbum não é necessariamente sobre alguém. É para as pessoas que passavam por nossas vidas. Os nomes são só simbólicos para trazer essa narrativa do álbum, sobre alguém que tentou amá-las, mas não conseguiu”, explica Alee.

Trap soul com identidade brasileira

Musicalmente, o projeto se ancora no trap soul, subgênero que mistura a estética do trap com a melodia e a sensibilidade do R&B, popularizado internacionalmente por Bryson Tiller na metade da década passada. Mas, ao invés de apenas reproduzir essa fórmula, Alee e Klisman tentam reinterpretar esse som a partir de suas próprias referências culturais.

No caso de Klisman, nascido e criado no Centro Histórico de Salvador, a influência da música baiana aparece como um elemento estruturante. “O pagodão baiano influencia muito a gente e é a nossa inspiração. A gente bebe muito da nossa cultura, do axé, do forró, da musicalidade afro-brasileira em si”, explica o artista.

Esse “tempero baiano”, como eles definem, aparece menos como citação direta de gêneros e mais como atmosfera: nas melodias, no swing das batidas e na forma como os dois transitam entre o canto melódico e o rap.

Uma parceria que virou projeto

Embora Alee e Klisman nunca tenham se apresentado oficialmente como uma dupla, a química entre os dois já vinha sendo percebida pelo público há alguns anos. A amizade começou em 2019, quando se conheceram por acaso através de amigos em comum. A partir de 2021, no entanto, a parceria musical começou a se consolidar.

Faixas como “Party”, “Pagão” e “São Paulo” ajudaram a construir essa conexão artística, levando os dois inclusive ao Top 50 Viral do Spotify em diferentes momentos. Dentro do estúdio, essa relação se traduz em um processo criativo intuitivo. “Esse complemento entre nós é quase uma mágica. Não dá pra explicar. Todo nosso processo criativo flui naturalmente. Um cria e o outro complementa”, conta Klisman.

A ideia inicial para o projeto também era bem menor. O plano era lançar apenas um EP com músicas românticas que já vinham sendo feitas ao longo do tempo, mas o material começou a crescer.

“A gente já vinha criando músicas românticas, mas o timing não estava bom para lançar. Então surgiu a ideia de fazer um EP. Só que o projeto foi tomando proporções maiores e acabou virando o álbum”, relembra o rapper.

Vulnerabilidade como linguagem

Se há algo que diferencia Para: Todas Que Fingi Amar dentro do catálogo dos dois artistas é justamente o nível de exposição emocional. O disco abandona parte da estética mais combativa tradicional do trap para apostar em um território mais introspectivo.

Klisman vê essa vulnerabilidade como uma condição fundamental da arte. “Esse disco tem muita verdade. Eu não tive medo de ser vulnerável. A arte é isso: a gente precisa se abrir para criar identificação com outras pessoas”, afirma.

Essa honestidade emocional também se conecta com um momento específico na trajetória de ambos. Nos últimos anos, Alee e Klisman consolidaram seus nomes dentro da cena nacional com projetos que ampliaram seu alcance.

Alee vive um período de forte ascensão desde o impacto de CAOS e sua continuação CAOS DLX, trabalhos que acumulam milhões de reproduções e o levaram a grandes palcos como The Town e Circo Voador. Já Klisman aprofundou sua própria narrativa artística em “Centro Histórico Tá Como?”, álbum inspirado em suas vivências no coração de Salvador.

Nesse contexto, o novo disco funciona ao mesmo tempo como continuidade e ruptura. “Esse capítulo é importante para mostrar nossa versatilidade e visão musical”, diz Klisman. “O trap é algo muito natural para a gente, mas o R&B causa mais estranheza para o público. Então esse projeto também é uma forma de expandir isso.”

Um retrato afetivo da geração do trap

Mais do que um experimento sonoro, Para: Todas Que Fingi Amar funciona como uma espécie de diário emocional coletivo. Ao falar sobre relações instáveis, tentativas de amar e falhas pessoais, o álbum toca em um tema cada vez mais recorrente no rap contemporâneo: a fragilidade emocional masculina.

Em vez de esconder essas contradições, Alee e Klisman escolhem transformá-las em narrativa. E talvez seja justamente nessa honestidade, às vezes desconfortável, às vezes melancólica, que o disco encontra sua força.

Porque, no fim das contas, Para: Todas Que Fingi Amar vai além de ser um álbum sobre relacionamentos. Os dois artistas narram a dificuldade de aprender a amar enquanto ainda se está tentando entender a si mesmo.

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Felipe Mascari

Alee e Klisman mergulham em amores fracassados no álbum “Para: Todas Que Fingi Amar”


LR

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