“Desmonte”: o reencontro de Larissa Luz com o Rock e o desejo de desconstruir estruturas

Crédito: Jordan Villas

Larissa Luz sentiu vontade de questionar de forma mais incisiva determinadas estruturas e foi exatamente isso que ela fez em seu quarto disco de estúdio, Desmonte, no qual também tenta reconstruir novas possibilidades.

Em conversa com o TMDQA!, a cantora baiana comentou detalhes sobre o contexto da obra que surgiu de uma necessidade de desfazer certos padrões sociais e artísticos, e que também serviu como um movimento de reconstrução pessoal, por meio do qual revistar o passado se tornou essencial para reencontrar partes de si mesma deixadas pelo caminho.

Para chegar tanto nos temas abordados como na sonoridade de Desmonte, que é marcada pela união do Rock com elementos dos ritmos afrobaianos, Larissa revisitou sua adolescência, apontando que naquela época tinha “uma visceralidade, uma coragem”. “Eu acreditava muito fortemente em mim, na minha força, no meu poder”, disse ela, que também percebeu que precisava resgatar aquelas características para conseguir lançar um material que fizesse sentido para ela nos dias atuais.

“Me lembrei que o começo da história toda, de onde eu fui mais intensamente eu, era o rock que tava ali de plano de fundo. Hoje eu sou amiga de Pitty, que era uma cantora que eu ouvia na adolescência. No Inkoma ela era super jovem e era uma mulher dobrando uma cena inteira super masculina. E ela era uma referência mesmo. Então, ali eu conheci a transgressão, ali eu conheci o poder de transformação das mulheres, ali eu conheci muitas coisas que hoje fazem muito sentido pra mim. Aí eu falei: ‘Acho que eu tô precisando de uma dose da Larissa dessa época pra poder energizar um pouco a Larissa de agora’.”

Larissa Luz também refletiu sobre como, mesmo sendo desafiador expor vulnerabilidades em suas obras, é assim que nasce uma conexão mais humana e verdadeira com o público. Para a cantora, abandonar a ideia da “diva inacessível” também reforça essa relação e ajuda a criar um espaço mais honesto:

“A gente também tem vulnerabilidade, a gente também tem fraqueza, a gente também chora, a gente também sucumbe às vezes, sim. Por que não? Depois a gente levanta e continua. […] A vulnerabilidade faz parte de um processo de construção mesmo, de comunidade, pra mostrar pra nossa gente que a gente às vezes não tá bem, e que tá tudo bem.”

Na conversa, Larissa também falou sobre oferecer espaço para novos artistas ao comentar as participações de ÁUREA SEMISERIA e Zé Atunbi no álbum, relembrou o impacto do projeto “Rock in Gil” e celebrou a oportunidade de levar essa homenagem a Gilberto Gil ao palco do Rock In Rio em Setembro.

Leia o papo na íntegra abaixo e ouça Desmonte ao final da entrevista!

TMDQA! Entrevista Larissa Luz

TMDQA!: Larrisa, refletindo um pouco sobre o conceito de “Desmonte”, ao mesmo tempo em que ele parte de uma ruptura, você também parece propor uma reconstrução. Qual foi o contexto para a criação desse disco e em que momento essas letras surgiram?

Larissa: A ideia de “Desmonte”, de desmontar, parte de um desejo de desconstruir mesmo estruturas, pensamentos, de dentro e de fora, coisas que a gente vê se repetindo, que são inaceitáveis, que são incômodas. E aí eu comecei a elucubrar em cima dessas coisas que estavam me acometendo. Pensando na minha adolescência, pensando na minha época de rebeldia, em que eu quis até seguir carreira política. Eu fui do grêmio da escola, e naquela onda foi aí que eu descobri o rock.

O rock fez muito sentido. Porque tinha uma fúria inerente àquela fase, onde a crença nas mudanças, nas transformações, era muito forte. Então eu acreditava que eu podia realmente mudar o meu entorno. E aquele ritmo enérgico, eletrizante, pulsante ornava muito com aquilo tudo. E eu acho que a gente está num momento agora, politicamente, socialmente, estrategicamente falando, que precisa de um pouco de energia de movimento mesmo, de atitude. Que precisa de força. Então acho que juntou tudo e desembocou num grande desmonte pra que a gente consiga depois construir uma outra coisa, pegando essas peças que a gente acha quando desmonta alguma coisa.

TMDQA!: E essas músicas surgiram juntas ali ou tem algumas canções que já são mais antigas e outras mais recentes?

Larissa: Teve um momento em que eu abri um portal, assim, e aí eu comecei a criar. E só deixando passar coisas, fui criando, criando, criando. E fui vendo o que fazia sentido. As coisas que estavam saindo faziam sentido. A energia que estava pulsando no momento, as coisas que estavam me incomodando a ponto de querer sair de dentro de mim. Acho que tudo estava surgindo do mesmo desejo, assim, de extravasar, né? De colocar pra fora de uma maneira intensa, de uma maneira enérgica, quase como um processo de cura mesmo. Coisas que estavam precisando realmente sair de forma avassaladora, sem se preocupar com as edições, com aparar as arestas, com agradar, com algoritmo. Eu queria só expurgar, assim. E aí, a partir desse momento que eu abri esse portal, foram vindo muitas coisas. Acho que no ano passado, assim, meio pro final. Comecei e fui deixando passar, e foram vindo todas em sequência.

TMDQA! E a gente tem que falar sobre a sonoridade desse disco, que é algo bem marcado e que causa um impacto em quem está escutando. Como foi o direcionamento para escolher esse som mais pesado mas que também resgata os ritmos baianos, que já são um marco das suas obras?

Larissa: Nesse mergulho pra dentro. Eu falo que a gente, em vários momentos da vida, precisa parar pra poder voltar um pouco algumas casas e ver o que a gente foi deixando pra trás para poder resgatar algumas coisas que a gente vai perdendo com esse mundo doido, né? Que vai exigindo da gente um monte de coisa. A gente vai deixando algumas coisas nossas para lá, pra poder atender uma expectativa social, uma expectativa do mercado. Porque você precisa ser polida, você precisa ser não sei o quê, você precisa ser… E aí você vai deixando de ser quem você é. Então, eu tava nesse momento de parar pra ver o que eu deixei de ser pra ser o que eu tava me tornando por conta de alguma coisa. Tirar algumas palavras que entraram. Que não fazem sentido, que eu deixei porque estava frágil em algum momento. Então fui fazendo esse resgate.

E aí lembrei dessa época onde eu tinha uma visceralidade, uma coragem, onde eu acreditava muito fortemente em mim, na minha força, no meu poder. E me deparei com isso e falei: “Poxa, como era bom acreditar em mim dessa forma, não duvidar de mim. Como era bom não duvidar de mim nessa época, onde eu não sabia que as pessoas poderiam duvidar de mim, sabe?”. Porque quando eu me deparo com o mundo que tá o tempo inteiro colocando a minha inteligência, a minha existência, a minha beleza em xeque, tudo isso vai sendo fragilizado, né? Normal, natural. E aí eu fui lá. Quando eu fui lá na adolescência, eu vi: “Poxa, como eu era crente em mim, como eu tinha uma potência. Por que eu perdi isso? Onde que eu perdi alguma coisa disso, né? Onde que eu deixei pedaços disso?”. Aí eu fui e me deparei com o rock.

Me lembrei que o começo da história toda, de onde eu fui mais intensamente eu, era o rock que tava ali de plano de fundo. Hoje eu sou amiga de Pitty, que era uma cantora que eu ouvia na adolescência. No Inkoma ela era super jovem e era uma mulher dobrando uma cena inteira super masculina. E ela era uma referência mesmo. Então, ali eu conheci a transgressão, ali eu conheci o poder de transformação das mulheres, ali eu conheci muitas coisas que hoje fazem muito sentido pra mim. Aí eu falei: “Acho que eu tô precisando de uma dose da Larissa dessa época pra poder energizar um pouco a Larissa de agora”.

Continua após o vídeo

TMDQA!: E acabou saindo um resultado muito coeso, né? Pensando no que você já apresentava nos seus trabalhos, a percussão, ritmos mas experimentais também. Tudo se alinhou.

Larissa: É porque o rock tem uma origem negra, né? E isso também foi um processo de descoberta. À medida que eu fui crescendo e me descobrindo e me entendendo enquanto uma mulher negra, porque, apesar de ser aparentemente visível e notório, para mim a internalização disso foi vindo aos poucos com a leitura, com o conhecimento das pensadoras negras. E aí, com tudo isso, eu fui percebendo algumas coisas também e dentre elas, que o rock tinha uma origem negra. Então, meu trabalho sempre foi nessa onda, de propor esse encontro de ritmos, essa fusão de ritmos negros. Onde que as claves se encontram? Onde que esses ritmos se cruzam.

E aí eu falei: “Bom, acho que agora qualquer visitação que eu vá fazer de uma adolescente, de uma jovem, de uma juventude, de um passado, de algo que me remete a uma Larissa que eu já fui, mas que eu continuo sendo, perpassa por tudo que eu fui depois daquele momento ali”. Então tem a percussão, tem a Bahia, tem o grave dos tambores, tem o pagodão. E aí eu fui trazendo todas as outras referências que eu fui conhecendo depois. Fantasmão, que é um grupo de pagode daqui, que mistura o rock’n’roll com o pagodão. Eu trouxe o guitarrista do Fantasmão pra produzir o disco, o que faz muito sentido pra mim, né? Hoje eu misturo essas coisas já, de alguma forma, no meu trabalho. Eu quis intensificar isso, né? Mas as minhas referências, os meus parças… BaianaSystem e tudo mais. Eu acho que fazia muito sentido trazer isso também pro disco. A Bahia de uma forma direta, de uma forma intensa, na sua raiz. E olha como que o rock combina, olha como que o rock tem Ijexá, olha como que o rock também rola com Samba Reggae, olha como é que o rock rola aqui com Amapiano. Então, é meio que propondo um desmonte mesmo de uma estrutura que a gente costumava ver e propondo uma outra montagem, uma outra leitura, uma outra orientação.

TMDQA!: E eu acho que a gente tem visto isso cada vez mais também, né? Na cena brasileira, assim, os artistas explorando mesmo, não ficando amarrados num gênero específico. Você pega um disco e tem vários estilos ali, vai de samba, vai pro rock, vai pro pop, tudo misturado, mas com uma coesão, com um sentido, né?

Larissa: Eu acho que a gente é isso, a gente é multiplicidade. Não tem por que querer ficar preso e amarrado a uma coisa só. A gente tem várias possibilidades. Por que não propor encontros de linguagens, né?

TMDQA!: E Lari, o disco apresenta ali algumas músicas mais voltadas ao empoderamento, outras mais leves e dançantes, mas também conta com canções como “Solidão a dois” e “Intensa”, que apresentam relatos e reflexões mais íntimas. Foi desafiador para você expor certas vulnerabilidades nessa obra?

Larissa: Expor vulnerabilidade é sempre desafiador. É sempre um processo. Eu sempre tive muita dificuldade de me expor. Sempre foi assim: “Ai, meu Deus, vou ter que falar de mim, vou ter que mostrar que eu sou isso”. Principalmente nós, assim, mulheres. E nós, mulheres pretas, mais ainda. A gente tem esse estigma de estar forte, de estar ali liderando, de ter que segurar a onda, de não posso sucumbir, não posso baixar a cabeça, tenho que levantar, tenho que botar minha voz firme, senão o pessoal pisa em mim”. Então, assim, se mostrar vulnerável é um desafio que a gente vem rompendo ao longo desses anos. Eu sinto que a gente está cada vez mais se permitindo. A gente passou por esse momento de se empoderar, de todas, cada uma dizendo pra outra: “Vai, vai, vai, você pode ir embora, levanta, levanta”. Mas também veio depois o momento de “Calma, agora vamos também equilibrar um pouco”. A gente tem força, a gente vai pra cima, a gente sabe guerrear, sim, a gente sabe se defender, sim, a gente sabe defender umas às outras e a gente também tem vulnerabilidade, a gente também tem fraqueza, a gente também chora, a gente também sucumbe às vezes, sim. Por que não, sabe? Depois a gente levanta e continua. E uma ajuda a outra também a levantar, né? E isso é completamente humano, é o princípio do ritmo, né? É a gente dançando com descompasso. Às vezes tá dentro, às vezes tá lento, às vezes tá rápido, às vezes tá baixo, às vezes tá alto. Então não existe vida linear.

Eu acho que isso também aproxima o público, de certa forma, porque a gente foi desconstruindo essa ideia da diva inacessível, inabalável, perfeita, que não tem uma espinha, não tem um problema, não tem um dilema na vida pra resolver. A gente tem. A gente tem muitos. E isso é bom, porque as pessoas não tentam se comparar e não se sentem frustradas quando se comparam, sabe? Porque eu vejo muitas meninas tomando artistas, atrizes, escritoras, cantoras como exemplo. Imagina se elas acham que nós somos perfeitas e que elas precisam ser também. Olha que fardo, né? Então, acho que a vulnerabilidade faz parte de um processo de construção mesmo, de comunidade, pra mostrar pra nossa gente que a gente às vezes não tá bem, e que tá tudo bem. E que isso é muito importante no processo de cura, no processo de libertação, de emancipação. Muitas coisas acontecem porque as pessoas não têm coragem de dizer que estão mal, que estão ruins, que estão atravessando fases difíceis. Então falar disso é bom porque estimula as pessoas a falarem também, dividirem.

TMDQA!: Você comentou no seu Instagram que com o lançamento desse disco você sentiu alívio e validação da sua própria existência. O que dentro de “Desmonte” te fez chegar nesse sentimento de forma tão profunda?

Larissa: Eu acho que quando eu me permiti escrever o que eu estava sentindo, já foi um desbloqueio de uma fase extensa em que eu não estava deixando muita coisa acontecer. Eu estava criando, mas eu estava um pouco travada, muito por conta das minhas reações e dos meus sentimentos em relação ao que as pessoas achariam ou sentiriam. Por incrível que pareça, isso durante um tempo me atingiu de uma forma muito intensa. Depois, obviamente, fui administrando. Mas quando eu atravesso essa barreira de… Não que eu não me importe com o que as pessoas acham sobre mim ou sobre o meu trabalho, porque eu me importo. A gente cria para as pessoas. Eu quero que as pessoas se aproximem de mim. As pessoas que têm alguma coisa pra trocar, as pessoas que querem se aproximar, eu quero que se aproximem. Mas eu não quero ser só. A vida é feita de troca. Eu quero ter pessoas comigo. Mas quando eu me dispo do medo de desagradar ou de eventualmente ouvir ou ver algum comentário que não concorda com o que eu digo, com o que eu canto, com o que eu faço, eu acesso uma camada muito profunda da minha existência. Que não diz respeito a como as pessoas regem o meu comportamento. Diz respeito ao que eu sou. E só.

Então foi muito importante pra mim, pessoalmente, conseguir colocar essas músicas na rua. Porque é um processo de desapego da perfeição mesmo. E isso é libertador. Porque a gente fica: “Não, mas tá ruim. Não, mas conserta. Não, mas tem que ter isso. Não, mas tem que ter aquilo. Não, mas tem que se encaixar aqui, tem que ir ali”. E você não se solta. Você não se mostra. Você não libera, porque você não se permite errar. A gente fica o tempo inteiro assim: “Isso não pode errar”. Aí, quando erra, é uma culpa terrível. E se castiga, e se martiriza. Então, me livrar um pouco disso foi realmente um alívio, como eu falei. Deixa ver também. O que der, deu. O que não der, a gente vai pro próximo. Vou trabalhar, vou mostrar. Tomara que as pessoas curtam. E quero juntar muitas pessoas para falar sobre essas coisas aqui. Quero que as pessoas escutem pra ter atitude, ter energia, pra fazer o que elas estão precisando fazer. E quem quiser colar, massa, sabe? O que der, foi. Então, soltar já foi um processo de alívio muito grande.

TMDQA!: Você convidou ÁUREA SEMISERIA e Zé Atunbi para participar desse disco e eu queria saber, o que motivou essas colaborações?

Larissa: A ÁUREA eu já tinha vontade de fazer algo. Sempre achei ela uma artista muito forte, muito ousada. E falei: “Tem muito tempo que eu quero fazer alguma coisa com a Áurea”. O Zé Atunbi também. A gente já tentou fazer e gravar coisas, e ele não tinha conseguido ainda. Eu acho ele um dos nomes realmente mais fortes de Salvador. Acho que ele é um cara que me chamou muita atenção e está agora construindo seu projeto solo. Eu fiz um vídeo há pouco tempo falando da pouca oportunidade que se dá aos artistas que estão em processo de construção, que estão galgando coisas. A gente está sempre querendo quem já tem o hype, quem já tem muitos números, quem vai trazer público. E às vezes a gente precisa tirar um pouquinho disso também e falar: “Poxa, quem que tá aí que é muito legal e que talvez eu possa ter alguma coisa a somar?”. Trazer um pouco mais de pessoas pra vida desses artistas. Trazer um pouco mais de olhar. Ou que a gente possa junto chamar a atenção de mais pessoas. Como que a gente pode potencializar esse outro lado, essa outra cena que está em construção, para além da que já está aí, já é consolidada, já é consagrada? Eu já gravei com tantos artistas grandes, incríveis. A própria Pitty, Emicida, Di Melo, Margareth Menezes. Tantos artistas que me deram espaço, me deram oportunidade, me deram lugar de fala ali pra poder mostrar a minha voz, o meu talento. Por que não chamar artistas de Salvador que eu também acredito e com quem eu posso somar nesse lugar? E aí lembrei deles dois, que estão despontando e que são incríveis e tem tudo a ver.

TMDQA!: E Lari, o lançamento de “Desmonte” acontece pouco tempo depois do projeto do seu show “Rock in Gil”. De que forma essa imersão no repertório de Gilberto Gil influenciou sua relação com o rock neste novo disco?

Larissa: Rock in Gil eu digo que foi um pré-projeto, um aquecimento do começo dessa história. Eu estava nesse processo. Quando eu comecei a entrar nesse lugar de me revisitar, de me entender, de buscar coisas que eu já fiz, o que eu sou, o que eu já fui, o que eu era, o que eu continuo sendo, me deparei com Gil, que sempre foi uma referência pra mim. E depois eu tive o prazer de conhecer, de trocar, de tocar junto. Fiz live com ele. Foi um sonho realizado. E quando eu estive na live com ele, eu falei: “Gil, eu tenho muita vontade de gravar os seus rocks”. Porque quando eu fui aprofundar na obra dele, eu ficava: ‘Nossa, Gil é rockeiro, ele tem vários rocks’, não sei o quê”. Ele falou: “Não, faça. Tem vários”. A gente começou a lembrar dos rocks. “Tem ‘Pessoa Nefasta’, tem “Extra II (O rock do segurança)”. Ele tem “Punk da Periferia”. E a gente foi discorrendo sobre esse repertório dele e sobre essa história dele com o rock.

E aí eu fui fazer um mergulho na história do rock, percebendo aquilo tudo aquilo que eu falei, a origem negra do rock. E vendo como no Brasil, a gente explorou pouco essa realidade, essa história negra dentro do rock, como se desenvolveu discretamente. Tem, mas não foi em larga escala. Não se popularizou a figura do negro atrelado ao rock, como eu acho que deveria. Aí eu falei: “Ah, legal. Acho que é um bom momento pra gente falar um pouco disso”. Um resgate de algo que sempre foi nosso também, que a gente faz parte também dessa história. Através de um artista que é da Bahia, eu sou baiana, sou daqui de Salvador, um artista que é versátil pra caramba, que passeia pelos ritmos brilhantemente, que é um mestre, assim, né? Musicalmente falando, artisticamente falando, é um mestre das palavras também. Aí eu achei que era uma ótima oportunidade pra começar a trazer à tona essa nova visão, misturando as coisas, os ritmos africanos, de origem africana, com o rock, com a guitarra distorcida. Percebendo ali o quanto Gilberto Gil foi rock and roll e a gente nem percebia muitas vezes, vendo as influências dele, ele falando de Jimi Hendrix. Então, foi muito legal poder começar essa história passeando por essa releitura e dando destaque pra essa releitura, para que a gente possa se incluir, contextualizar um pouco a nossa galera também que faz parte da nossa história. E pra depois vir com algo autoral, que continua aquela história que eu comecei a contar ali.

TMDQA!: Você vai levar esse projeto para o palco do Rock In Rio em Setembro. Como foi receber o convite para participar dessa programação e levar essa homenagem tão especial para um evento como esse?

Larissa: Foi muito mágico, porque o nome mesmo já veio daí. O Rock In Rio sempre foi um festival dos sonhos, assim, de muitos anos. Desde novinha eu ficava: “Ah, quero ir no Rock In Rio”. Tem até um show de Gilberto Gil no Rock in Rio em que ele fala “vamos fazer outro rock”. E tem shows emblemáticos no Rock In Rio, o festival faz parte da história de muitos artistas, que marcou a vida de muitos artistas e de muitas pessoas que estiveram lá enquanto público também, enquanto plateia. Eu já fui um ano também com um show do “Trovão”. Zé Ricardo tem uma curadoria muito sensível, muito agregadora. Eu adoro a curadoria do Rock in Rio. Sempre que eu posso eu tô lá. Se eu não estiver como artista, eu vou como público.

E aí o “Rock in Gil” veio daí, né? Pensei no rock’n’roll, no Rock in Rio, em Gil, e ai pensei no trocadilho com a palavra, a fonética, e um sentido de tudo, né? Um sentido de ser um rock no Brasil, ser o rock sendo feito no Brasil por pessoas daqui, bebendo de outras fontes, misturando influências e artistas e coisas de todo mundo. Então, quando recebi o convite, eu falei: “Ai, tudo a ver, graças a Deus”. Enfim, queria muito. Eu vibrei muito, fiquei muito agradecida pela lembrança, pelo reconhecimento. É um marco. Quando a gente vê que festivais como esse, com nome, com respaldo, com o tamanho do Rock in Rio, vêm e falam: “Estamos vendo, estamos de acordo, estamos com você”. É legal. É um sinal positivo também, é um estímulo, é um “sim”. Então foi muito legal. Tô animada. Espero que o público curta também, como a gente vai se divertir, porque tenho certeza que a gente vai.

TMDQA!: Pra gente encerrar nosso papo, quero saber quais discos ou artistas foram seus melhores amigos durante o processo de criação de “Desmonte”?

Larissa: Eu ouvi muita coisa solta. Mas Nova Twins é uma dupla que eu tenho escutado muito. Cazuza eu voltei fortemente, porque eu acho que ele teve um papel importante naquela época, na minha descoberta do rock. Esse repertório de Gilberto Gil, que inevitavelmente eu tô revendo e revendo muitas vezes. Tem umas bandas que eu curtia na adolescência que eu fui procurar, como System of a Down, pra ver timbres. Fui revisitar umas bandas de Salvador também, mostrando até pros meninos. Um dos produtores é bem jovem, que é Danilo Panda, ele tem 24 anos. Então eu vivi uma cena que ele não viu, assim, né? E foi muito legal eu, bem tiazona, assim, falando: “Você conhece Catapulta?”. Eles já misturavam o rock com guitarra distorcida, com coisa regional”. Lampirônicos, que é a banda de Robertinho Barreto, do BaianaSystem, já fazia parte. Robertinho sempre à frente, assim, né?

E aí a gente começou a passear por esse universo, a gente foi viajando muito. O guitarrista Ícaro Motta, que é o guitarrista que eu falei do Fantasmão, que produziu também o disco junto, ele também ia trazendo várias referências, assim, porque ele é bem roqueirão. Então a gente foi trocando muitas refs durante o processo, nesse lugar nostálgico e, ao mesmo tempo, me atualizando com eles, assim, que já traziam referências de uma outra geração. Então foi muito legal essa troca intergeracional.

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Lara Teixeira

“Desmonte”: o reencontro de Larissa Luz com o Rock e o desejo de desconstruir estruturas


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“Desmonte”: o reencontro de Larissa Luz com o Rock e o desejo de desconstruir estruturas


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