TMDQA! Entrevista: Marcos Valle reinventa Henri Salvador

Marcos Valle, em registro promocional
Divulgação

Se você colocar uma agulha para correr em qualquer linha do tempo da música pop global nos últimos sessenta anos, as chances de esbarrar nas digitais de Marcos Valle são gigantescas. O homem que ajudou a desenhar a segunda onda da Bossa Nova, que colocou o mundo inteiro para cantar o “Samba de Verão” e que virou um dos pilares do jazz-funk carioca – tornando-se, de quebra, um dos artistas brasileiros mais sampleados por DJs e rappers ao redor do planeta -, parece carregar o segredo do frescor eterno em sua camisa florida.

Agora, em pleno 2026, Marcos prova mais uma vez que suas fronteiras musicais não têm barreiras. Como diretor musical e arranjador do ambicioso projeto Henri Salvador do Brasil, ele assumiu a audaciosa missão de reimaginar a obra de uma lenda: Henri Salvador (1917-2008), o guitarrista de jazz e pioneiro do rock na França que, reza a lenda, ajudou a inspirar o nascimento da própria Bossa Nova no final dos anos 50.

Para dar vida a esse tributo, a lenda da música brasileira convocou um verdadeiro dream-team intergeracional: de veteranos como Seu Jorge, Zélia Duncan e Bebel Gilberto à nova e brilhante safra da MPB representada por nomes como Zé Ibarra e Dora Morelenbaum.

Nós, do TMDQA!, tivemos a oportunidade de bater um papo com Marcos Valle sobre como foi traduzir o ócio elegante francês para o suor e o balanço do samba-funk, a experiência de resgatar os laços históricos de Henri Salvador com o Rio de Janeiro e, claro, como ele consegue manter a sua música soando tão incrivelmente jovem e relevante depois de tantas décadas de estrada.

Desligue o piloto automático, prepare o seu café (ou abra uma cerveja gelada) e venha acompanhar essa aula de groove. Se liga!

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TMDQA! Entrevista Marcos Valle

TMDQA!: Marcos, antes de qualquer coisa, muitíssimo obrigado por me receber, que honra imensa! Gostaria de saber como você está. Tudo bem contigo?

Marcos Valle: Está tudo ótimo, graças a Deus! Voltei de uma turnê grande na Europa, de 22 shows – foi coisa para caramba, mas foi muito legal. Estou muito feliz e já me preparando para uma próxima agora nos Estados Unidos, dando uma descontraída aqui um pouquinho. [risos]

TMDQA!: Fico feliz, cara! Mais uma vez, parabéns também pelo lançamento nesta sexta-feira. Eu queria começar te perguntando sobre o Tom Jobim, que meio que brincava que o Henri Salvador inventou a Bossa Nova por causa de “Dans mon île”. Se o Henri inventou essa bossa em Paris, dá para dizer que você, com seus sintetizadores e grooves californianos, inventou a “bossa do futuro” nos anos 70 e 80? Como foi o processo de vestir as canções dele com a sua identidade?

Marcos Valle: Se eu falar isso, vou perder a modéstia! [risos] Não, eu acho que essa modernidade na bossa que eu faço, na qual as pessoas mergulham, é uma coisa inerente que não sei explicar bem. Sempre tive influência de tudo desde cedo… com três ou quatro anos de idade, eu já tinha música na cabeça, então fui assimilando muita coisa. Daí criei esse estilo misturado.

Foi um prazer imenso poder fazer isso com o Henri porque respeito demais a música dele, gosto dele desde os meus 17 anos. Poder mexer na obra dele, colocar o meu lance, minhas harmonias e o meu groove foi algo que precisei fazer com muito cuidado – afinal, ele já não está aqui, mas está lá em cima e poderia dizer: “pô, pera aí!”.
Tudo o que procurei fazer respeitou muito o lance dele, mas jogando as minhas características. Acho que existe uma semelhança de diversidade e versatilidade entre a música dele e a minha, e foi esse o elo que encontrei para realizar o trabalho.

TMDQA!: Em 1942, o Henri chegou ao Rio e fez a Urca dançar, enquanto em 1965 você estava lá em Los Angeles com o Brasil’s 65. Esse projeto parece o fechamento de um espelho histórico, se pararmos para pensar. Você sentiu que estava traduzindo esse “exílio carioca” do Henri para a linguagem do streaming de hoje?

Marcos Valle: Sim, era exatamente isso que eu queria fazer. Inclusive, o idealizador desse projeto é o Emmanuel de Ryckel – ele não é da área da música, trabalha com laboratório de medicina, mas é apaixonado pelo Rio de Janeiro e pelo Henri. Quando ele me procurou, me disse exatamente isto: “Marcos, sei que você vai modernizar a música do Henri. Ou seja, nós vamos juntar dois públicos diferentes”.

Ele pensou que, como eu tenho esse público jovem me acompanhando, essa juventude conheceria o Henri através da minha forma. Achei essa ideia de rejuvenescer a obra dele sensacional, foi o norte na hora de escolher os cantores e os arranjos: trazer essa música, que já é atemporal, para os dias de hoje.

TMDQA!: Agora falando de fato sobre as faixas e aprofundando no trabalho – que tive a chance de ouvir e está maravilhoso -, vamos começar por um dos singles. A releitura de “Jardin d’hiver” (“Jardim”) virou um mambo elétrico com a Simone. Como foi a conversa de estúdio para convencer uma gigante da MPB a trocar o tom intimista original por essa energia incisiva e solar?

Marcos Valle: Cara, eu adoro a Simone, quando estamos juntos rola sempre uma coisa tão boa, de tanto amor… parece que nos encontramos todo dia, embora não seja assim. É sempre um encontro muito forte, ela gosta muito de trabalhar comigo e eu com ela. Quando cheguei com essa música – e fui eu mesmo quem ligou para os intérpretes, já que tinha essa facilidade -, ela topou de cara. Falei: “olha, tenho uma música assim, vou te mostrar. Sei que você gosta do projeto” e ela respondeu: “Adorei o projeto, adoro o Henri”. Eu completei: “independentemente da parte burocrática, quero saber musicalmente”. Mandei a música e ela achou linda, mas me deu carta branca: “o que faz a tua cabeça? Faz o que você quiser”.

Fui e fiz aquele arranjo que foge completamente da história original, com swing, com uma mistura ali, e ela entendeu perfeitamente. Ela sempre me diz: “você é o eterno Menino do Rio”. – eu já estou com 82 anos, mas Simone diz que não importa [risos] Esse lado solar foi maravilhoso para ela, que rendeu demais no estúdio, não podia ser melhor!

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TMDQA!: Inclusive, a faixa “Je parie”, cantada pela Paula Morelenbaum, traz a voz do próprio Henri Salvador ao fundo. Do ponto de vista técnico e emocional, qual é a sensação de fazer um dueto com um “fantasma” tão bem-humorado e elegante?

Marcos Valle: Cara, foi maravilhoso. Essa ideia surgiu porque, na época, o Henri tinha mandado uma fita cassete com essa música para a Paula, mas era aquela sonoridade antiga de fita cassete. Quando escolhemos a música e eu disse que faria o arranjo, propus à Paula tentarmos colocar a voz do Henri – ela achou maravilhoso, mas ficou na dúvida se conseguiríamos. Eu disse: “deixa eu tentar, vamos ouvir os melhores momentos dele cantando”. Falei com o Marcelo Saboya, nosso técnico de som, e ele garantiu que daria certo fazendo de uma maneira específica.

Ficou lindo, cara, porque parece que eles estão conversando. Existe uma filmagem antiga de quando o Henri encontrou a Paula em que ele diz: “Um dia temos que cantar juntos”. Nós realizamos isso. Os dois cantando ali ficou muito natural, parece que estavam lado a lado, ficou muito legal.

TMDQA!: Marcos, você entregou “Les voleurs d’eau”, uma música politicamente densa, para o Seu Jorge transformar nesse afro-samba com sabor de rum, e também colocou o Zé Ibarra para cantar music-hall em francês. Como você distribuiu esses papéis? Foi por intuição pura ou um quebra-cabeça cerebral?

Marcos Valle: Foi por intuição, mas acho que uma mistura das duas coisas. Eu escutei um monte de músicas – imagina quantas faixas do Henri eu precisei ouvir! Eu já conhecia várias, mas tive que ir mais fundo (pedi ajuda ao Emmanuel, que conhecia tudo). Fui selecionando e fazendo uma pré-seleção. Depois, precisei ver quem casaria com o quê, quem cantaria aquilo bem… às vezes a música é muito boa, mas não combina com determinado intérprete.

Eu já tenho esse lado de produtor bastante forte desde a época em que fiz o meu songbook e planejava: “essa o Caetano vai gravar, essa a Bethânia, essa o Chico vai gostar”, então segui muito a intuição. E deu certo.
Claro que os artistas também precisavam gostar. Eu mandava e dizia: “escolhi essa para você, o que acha?”. Às vezes dava duas opções para escolherem, mas quase sempre fui muito certeiro.

O Zé Ibarra, por exemplo, eu adoro. Ele veio aqui em casa, trocamos ideias sobre o que a música poderia ser e eu brinquei: “agora está contigo. Quero que você crie o teu mundo”. O mundo do Zé é fantástico, assim como o da Dora Morelenbaum. Depois eu só coloquei o meu piano, foi um processo intuitivo, mas também um quebra-cabeça pensado. Quando vi tudo pronto, pensei: “hum, funcionou!”.

TMDQA!: É meio que impossível fazer uma entrevista com Marcos Valle sem falar sobre a sua trajetória. Quando você estava no estúdio gravando timbres brilhantes de sintetizadores nos anos 80, ou criando as harmonias de “Samba de Verão”, imaginava que um dia a sua música seria “espedaçada” e ressignificada por rappers americanos e europeus?

Marcos Valle: Não, nunca! A gente nunca tem noção de onde a música vai alcançar. Às vezes eu faço uma faixa e penso: “pô, gosto dessa para caramba, gostaria que as pessoas conhecessem”, mas o músico não tem esse controle. Quando fiz “Samba de Verão”, eu era muito novo, tinha uns 20 anos, cara. Com 20 anos, eu jamais poderia imaginar que seria sucesso no Brasil, quanto mais no mundo inteiro, tornando-se uma das músicas brasileiras mais executadas da história, não tinha como.

O mesmo vale para “Estrelar“. Você não tem essa noção, você simplesmente faz. Eu sempre acredito no que estou fazendo pelo lado do amor – eu preciso gostar para te mostrar. O que acontece depois é sempre uma grande surpresa e um imenso prazer, que traz uma energia fantástica para a carreira.

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TMDQA!: O Henri sempre flertou com a vanguarda, seja pela biguine, pelo pioneirismo no rock francês, etc. Você acha que esse espírito de “agente do caos” musical é o que mais une vocês dois através das gerações?

Marcos Valle: Acho, com certeza! Esse “caos”, essa mentalidade de estar de braços abertos para tudo, é vital. Estar aberto para isso, para aquilo, sem ficar preso pensando: “ah, mas o que eu já fiz já está lá”. O foco tem que ser: o que eu quero fazer agora? O que ainda posso criar? Que parcerias posso buscar? Para onde posso caminhar? Como posso abraçar as novidades do mundo e acompanhá-las? Isso é vital.

Por isso te falei que eu e o Henri temos muito em comum. Foi muito bom trabalhar com a obra dele porque a música dele é diversa, assim como a minha. Ora tem swing, ora foca na harmonia… É algo diferente. Essa afinidade facilitou muito o projeto.

TMDQA!: Queria destacar essa questão da juventude, porque você conviveu com os arquitetos da Bossa Nova e da MPB e agora trabalha justamente com os filhos e netos dessa revolução – citamos Zé Ibarra, por exemplo. Essa convivência com a juventude te faz querer continuar com a camisa florida e o frescor eterno? Existe um segredo de juventude nessa sua harmonia?

Marcos Valle: Rapaz, eu te digo uma coisa: acho que o único segredo para estar bem na música e na própria vida é gostar da vida. Eu amo a vida, nunca fui preso ao passado. Quero saber o que estou conversando com você hoje, quero saber de novas parcerias, de gente nova. Quando essa garotada me procura, sei que é legal para eles, mas para mim é tão bom quanto, cara! Disso surge outro lance. Quando vou para o palco com essa garotada na turnê, olha a energia que eles me trazem!

Então, bicho, não tenho segredo. O único é este: gosto da vida, amo a música, a música é a minha vida. Penso em música o tempo inteiro, quero ouvir coisas novas, quero aprender. Falo sempre com os meus filhos, que têm 32 e 33 anos: “eu quero aprender, tenho muito a aprender. Vocês querem aprender comigo? Não, eu aprendo com vocês, cara!”. Quero saber o que está rolando. Penso de maneira positiva, agradeço o que tenho e sigo em frente.

TMDQA!: Completamente admirável, Marcos. Quase fechando: se o Henri Salvador estivesse sentado aqui com a gente agora, tomando um cafezinho na sua casa ou na calçada em Copacabana, qual seria a primeira pergunta que você faria para ele sobre o que você aprontou com as músicas dele?

Marcos Valle: Primeiro a gente ia rir para caramba, porque ele era um cara muito bem-humorado e engraçado. Ele ia rir e dizer: “seu danado, o que você quer me perguntar?”. Aí eu diria: “Henri, tomei a decisão de mexer nas suas músicas, nas harmonias, no ritmo todo. Mas fiz com o maior respeito e amor do mundo pela sua obra. Então me diga, por favor: você gostou?”.

E eu acho que ele ia gostar, sem falsa modéstia. Acho que ele gostaria porque sabe exatamente disso que você falou: nós pensávamos de forma muito parecida em termos de abertura musical. Ele ia aprovar!

TMDQA!: Espetacular! Estou completamente realizado com esse papo. Meu nome é Eduardo, estou aqui representando o Tenho Mais Discos Que Amigos! e, ao final de nossas entrevistas, temos uma tradição que eu gostaria muito de fazer contigo: queria pedir para você citar cinco álbuns que mudaram a sua vida e as razões para.

Marcos Valle: Com certeza, Eduardo. Deixe-me pensar…

  1. Dorival Caymmi – Canções Praieiras: O primeiríssimo. Eu era um menino que, desde cedo, gostava de música. Eu mal podia imaginar que, mais tarde, ficaria amigo da família Caymmi, mas aquele disco foi fantástico para mim.
  2. João Gilberto – Chega de Saudade: Esse foi muito marcante, uma influência fortíssima na minha vida.
  3. Marvin Gaye – I Want You: Outro disco fortíssimo. O engraçado é como as coisas se cruzam: anos depois, acabei me tornando parceiro do cara que produziu e escreveu esse disco com o Marvin, o Leon Ware (com quem fiz “Estrelar”). As coisas se juntam!
  4. Tom Jobim – Matita Perê: É maravilhoso, lindo e de uma criatividade absurda.
  5. Milton Nascimento – Travesseia: Para citar o quinto, lembro de quando o Milton gravou o primeiro disco dele. Antes disso, eu estava nos Estados Unidos, “Samba de Verão” tinha estourado lá, e quando voltei, encontrei o Milton, acabamos gravando “Viola Enluarada” juntos. Depois ele gravou o seu próprio álbum solo. Fiquei muito feliz e aquilo me mudou, porque pude ver toda a musicalidade dele e sentir que tive uma pequena participação ali, trazendo o Milton e ajudando a mostrar as músicas dele.

É difícil selecionar só cinco, Eduardo, mas o caminho é por aí!

TMDQA!: Eu não poderia ter ficado mais satisfeito com as escolhas, tá maluco! Marcos, mais uma vez, um prazer imenso. Muito obrigado mesmo pela entrevista, cara.

Marcos Valle: Obrigado, querido, obrigado a você. Tudo de bom. Tchau, Edu, valeu!

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Eduardo Ferreira

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