Major RD encara a responsabilidade de liderar uma geração em “ALFA“: “Hoje eu cuido de muita gente”

Do garoto que sonhava em conquistar espaço no rap ao artista que hoje carrega uma legião de fãs nas costas, Major RD sabe que cada disco marca uma fase diferente da própria vida. Se Troféu registrava a fome de vencer e Ascensão do Cisne Negro documentava o impacto de finalmente chegar lá, ALFA nasce como o retrato de um homem que passou a enxergar o sucesso por outro ângulo: o da responsabilidade.
Ao conversar com o TMDQA!, o rapper carioca fala menos sobre números e mais sobre família, fé e legado. Em vez de celebrar apenas a própria ascensão, ele reflete sobre o peso de ser referência para milhares de pessoas, a relação íntima com a religião, a homenagem a Nossa Senhora Aparecida na capa do álbum e a emoção de dividir uma faixa com um dos seus maiores ídolos, MV Bill.
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Quando a conquista deixa de ser individual
Ao contrário dos trabalhos anteriores, o novo álbum não nasce da ambição de conquistar algo que ainda estava distante. Para Major, o disco registra um momento completamente diferente da própria trajetória:
“Hoje eu falo muito mais da minha família, das pessoas que dependem de mim. Durante o disco inteiro eu volto para esse assunto: minha mãe, meu pai, minha filha. É disso que o ALFA fala.”
Segundo ele, existe uma linha muito clara entre seus três principais projetos.
Enquanto Troféu mostrava um artista tentando abrir caminho dentro do rap nacional, Ascensão do Cisne Negro retratava a experiência de viver o sucesso pela primeira vez. Já ALFA abandona a perspectiva individual para colocar outras pessoas no centro da narrativa.
É justamente essa mudança que explica a escolha de abrir o álbum com “Cartas para Majur”, uma das músicas mais pessoais de sua carreira. Apesar da construção dramática da faixa sugerir uma despedida, a intenção nunca foi falar sobre morte.
“Parece que estou deixando uma carta porque morri, mas não é isso. A música fala sobre a relação entre pais separados e filhos. É uma forma de dizer para minha filha que, mesmo distante, eu continuo presente.”
A canção também sintetiza a definição que o próprio rapper construiu para o conceito de “alfa”.
“Ser um alfa é conseguir direcionar as pessoas para o caminho certo, mesmo quando você está longe.”
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O encontro entre o Soldado e o Major
Entre as participações do disco, uma delas carrega um significado que ultrapassa a música. Na faixa-título, MV Bill encerra um verso dizendo: “o Soldado encontrou o Major”, referência direta ao clássico “Soldado do Morro“.
Para quem cresceu ouvindo o rapper por influência do pai, a frase representa quase um rito de passagem:
“Conheci o MV Bill através do meu pai. Ele me mostrava as músicas, explicava as letras. Em vários momentos da adolescência eu pensava: ‘O que o MV faria nessa situação?’.”
Mais do que inspiração artística, MV Bill se tornou uma espécie de bússola moral, por isso, ouvir aquela frase dentro do estúdio teve um impacto difícil de explicar.
Questionado sobre o que diria ao garoto de Campo Grande que escutava MV Bill anos atrás sem imaginar onde chegaria, Major responde sem hesitar:
“Eu só falaria para continuar. Lá na frente você vai gravar com esse cara.” [risos]
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Entre a fé e a liderança
A capa de ALFA talvez seja uma das imagens mais simbólicas da carreira do rapper. Nela, Major aparece vestido como Nossa Senhora Aparecida, escolha que provocou discussões antes mesmo do lançamento do disco.
Longe da provocação, porém, o artista explica que a referência nasce de um lugar extremamente íntimo. Criado em uma família católica, ele diz que sempre encontrou conforto na fé nos momentos mais difíceis da vida.
“Muitas vezes eu me apoiei na religião para conseguir cuidar até de mim mesmo.”
Segundo Major, foi justamente essa ideia que aproximou a imagem da santa do conceito do álbum:
“O alfa é aquele que protege a família, e para mim, Nossa Senhora representa exatamente isso. Desde criança minha mãe me acompanha até o portão de casa dizendo: ‘Nossa Senhora te acompanhe’. Essas duas imagens conversam completamente.”
Antes de divulgar a arte, ele fez questão de mostrar a capa para familiares e pessoas próximas. A maior preocupação era que a homenagem pudesse ser interpretada como desrespeito.
“No começo minha mãe estranhou. Ela pensou que eu fosse colocar a imagem da Nossa Senhora no meio de um monte de música pesada. Mas depois ouviu o disco inteiro e entendeu o contexto.”
Para Major, a discussão também levanta outra reflexão.
“As pessoas normalizam músicas falando sobre violência. Então por que eu não posso falar daquilo em que acredito? Também somos seres humanos. Também precisamos nos apegar em alguma coisa.”
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Major RD: o peso de virar referência
Ao longo da entrevista, uma palavra aparece diversas vezes: “responsabilidade”. Ela surge quando o assunto é a filha, quando fala sobre a família e também quando a conversa chega ao impacto que sua carreira passou a exercer sobre o público.
Major não esconde que esse talvez seja o aspecto mais difícil do momento que vive.
“Hoje tem gente tatuando meu rosto, tatuando o urso. Se eu decepcionar uma pessoa, posso acabar decepcionando milhares.”
Na visão dele, o problema não está na admiração, mas na influência que um artista pode exercer sem perceber.
“As pessoas esperam que você acerte sempre. Só que a gente também erra. Por isso preciso pensar muito antes de qualquer posicionamento.
Se o ídolo divulga, muita gente acha que aquilo também vai dar certo para ela. Isso é muito perigoso.”
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Rock, mosh pit e Eloy Casagrande
Embora ALFA aprofunde o lado mais introspectivo de Major RD, o álbum não abandona uma característica que se tornou marca registrada do artista: a energia do rock. Não à toa, uma das músicas leva o nome de Eloy Casagrande, baterista brasileiro que atualmente integra o Slipknot.
A homenagem nasceu da admiração antiga:
“Eu acompanho o Eloy há muito tempo. Quando ele entrou para o Slipknot fiquei feliz demais. Essa música é uma homenagem mesmo. Espero que um dia ele escute.”
Segundo Major, a faixa é praticamente uma exceção dentro da proposta conceitual do álbum, mas precisava existir.
“Os fãs gostam desse lado mais pesado do meu som. Se eu não colocasse essa música, eles iam sentir falta.”
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“Eu também sinto medo“
Ao imaginar alguém ouvindo ALFA pela primeira vez daqui a dez anos, Major não pensa em reconhecimento, números ou legado artístico – o desejo é bem mais simples.
“Eu queria que as pessoas entendessem que eu sou um ser humano.
Também sinto medo. Tenho medo de perder pessoas da minha família, tenho vontade de descansar, tenho inseguranças. A gente vive muito mais coisas do que mostra.”
É justamente essa humanidade que ele espera deixar registrada no disco. Mais do que consolidar uma posição dentro do rap nacional, ALFA parece funcionar como um lembrete de que liderar nem sempre significa estar na frente.
Às vezes, significa apenas garantir que todos os que caminham ao seu lado continuem seguros.
Ouça o álbum abaixo:
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Eduardo Ferreira
Major RD encara a responsabilidade de liderar uma geração em “ALFA“: “Hoje eu cuido de muita gente”

LR
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