Um rio bonito chamado fracasso, por Lucas Silveira

Régua de sucesso, por Lucas Silveira
(Foto: Divulgação)

O cantor Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, é o sexto convidado da Coluna Pop, um espaço no POPline para os artistas expressarem suas opiniões, anseios e perspectivas sobre música e mercado, e compartilharem histórias pessoais, em comemoração aos 20 anos do portal.

Régua de sucesso, por Lucas Silveira

Quando comecei a fazer músicas, eu não tinha objetivo algum além de terminá-las. Cada uma parecia me ensinar alguma coisa. E era isso que cada uma delas literalmente fazia. Um novo acorde, um novo jeito de encaixar uma melodia em uma harmonia, uma estrutura nova que acabara de conhecer, tudo me sugeria que eu estava crescendo. E eu estava.

Em um intervalo de 4 anos, passei de mandar músicas para amigos próximos para soltar na internet a quem interessar pudesse. O feedback dos companheiros se tornara um livro de visitas em uma página perdida na internet, que misteriosamente recebia algumas dezenas de acessos de algumas partes do país. Eu conhecia os fãs pelo nome, e com eles conversava madrugadas adentro, mandava para essas pessoas alguma coisa em que estivesse trabalhando. Em um intervalo de 4 anos, eu fui de ter uma banda para ter uma carreira, com algum público, algum punhado de pessoas esperando pela próxima coisa, orgulhosos de estarem testemunhando o começo de alguma coisa.

Após um outro intervalo de 4 anos, eu estava com minha banda em cima de um palco, sendo televisionado para o país inteiro. Tínhamos acabado de receber o prêmio de Artista do Ano, tendo para isso recebido o voto de milhares, talvez milhões de pessoas. Minha carreira era um vetor que sempre apontava para cima. E, a partir daquele momento, minha missão parecia ser me certificar que aquela linha jamais apontasse para baixo. Eu já aprendera a acabar músicas. Já não mais conseguia conversar com meus fãs, pois eles não mais tinham nomes. Eles eram milhões.

Mais 4 anos se passariam e eu não conseguia mais fingir que meu sucesso era uma constante crescente. O que mais haveria para cima? Eu não era capaz de ver, por ignorância. Também não era capaz de olhar para baixo, por medo. Hoje me pergunto do que era o medo que eu sentia, se em momento algum da minha trajetória pregressa eu tinha memória de não amar o que estava fazendo e o que acontecia ao meu redor. A vida tinha me acostumado com a falsa normalidade de acordar sempre maior do que havia dormido. A estagnação e a regressão se pareciam demais com o fracasso.

Demorei mais 4 anos para conseguir deglutir o tijolo do fracasso. Eu poderia dizer que a gente nunca desistiu porque tínhamos uma convicção inabalável, mas estaria mentindo. Eu tinha vergonha de parar. E essa vergonha me fez entender que eu poderia inventar músicas que eu não tinha capacidade de terminar. Poucos fãs ficaram com a gente, e isso me possibilitou voltar a conhecê-los pelo nome.

Outra coisa que trouxe linearidade para minha autoestima e força de vontade foi saber que, apesar de parecer – a julgar por este texto – eu jamais estive sozinho. Eu tinha uma banda. Eu fazia parte de uma banda. Todos sentimentos que aqui foram narrados em primeira pessoa, na verdade foram compartilhados por uma entidade maior que eu. E se você olha pro lado e vê alguém vivendo exatamente a mesma coisa que você, você não vai querer deixar ele pelo caminho. E essa pessoa também não vai te deixar. Vai te empurrar de volta para a pista se for preciso.

Por muitas vezes, me peguei sentindo pena de quem vive a carreira artística sozinho. A mente do artista é a arma apontada para si mesmo o tempo todo. É essa obrigação artística que te levanta às 4 da manhã para registrar uma ideia no banheiro. Mas também é ela que vai te fazer jogar todos os rascunhos e HD’s no lixo quando a vida estiver te fazendo sentir-se um merda. As duas coisas acontecem comigo o tempo todo. Mas tenho comigo pessoas que estão vivendo suas vidas comigo, dispostas a deixar mais rasos os meus precipícios.

Muitos outros ciclos de 4 anos se passaram e se passarão. Já vi alguns deles se repetirem, parcial ou integralmente. Mas é como quando você assiste a um filme pela segunda vez e encontra detalhes nas cenas que tinha deixado escapar antes. Hoje mesmo, sonhei com uma ideia para uma música e precisei ruminá-la ao telefone para ter seu registro. Mais tarde, me ocuparei em terminá-la. Não apenas sei o nome dos fãs da minha banda, como criamos um espaço físico para eles se encontrarem e celebrarem a beleza de se gostar de uma coisa em comum. Eu só tenho uma banda porque encontrei coisas em comum para gostar com outras pessoas. A reta do gráfico do sucesso já esteve por todo lugar, mas eu não controlo mais o que de mim não depende. Hoje ele forma um caminho enorme, tão sinuoso quanto um rio bonito. Faço o que a mim cabe, que é terminar de escrever a música com a qual sonhei.

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Lucas Silveira
https://portalpopline.com.br/um-rio-bonito-chamado-fracasso-lucas-silveira/

LR

Um rio bonito chamado fracasso, por Lucas Silveira


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