Os desafios de criar palcos para marcas e artistas no Brasil

Rodrigo Tavares, Diretor Artístico da Bonus Track e sócio fundador da Mango (agência do grupo Bonus Track)
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Por Rodrigo Tavares, Diretor Artístico da Bonus Track e sócio fundador da Mango (agência do grupo Bonus Track)

O momento é de movimentação. Não necessariamente positiva, nem negativa, mas, sim, de um mercado que está mudando. Mudanças tanto pelo lado de quem produz quanto de quem consome.

A Mango nasceu há cerca de oito anos, em um momento onde artistas sem gravadora passaram a lançar música de forma independente, e não tinham oportunidades de tocar nos palcos pelo Brasil. Nascemos para dar palcos a estes artistas. Hoje, assistimos estes mesmos artistas tendo oportunidade de tocar. Porém, os palcos se tornaram saturados, tanto em conteúdo quanto em quantidade de shows.

Atualmente, o maior desafio ao desenhar um festival de música, show ou turnê está em encontrar conteúdos inéditos com capacidade de venda e engajamento que tornem o resultado dos projetos interessantes para todos os envolvidos na produção. Não é mais qualquer evento que vende ingresso, e não é qualquer experiência de marca, mesmo com bom impacto e movimentação, que compensa o investimento. Até porque, hoje, o investimento se tornou muito alto. O break even é cada vez mais complicado.

O que estamos aprendendo? Após quase três anos de pós-pandemia e a euforia dos eventos presenciais, estamos reaprendendo a olhar mais para o nicho, para a experiência verdadeira, e o trabalho com comunidades culturais. O “boom” do “vou sair e curtir tudo que eu posso” já não existe mais. A cobrança está desde a qualidade das bebidas, até o som, e os espaços de conforto, isso sem contar com a curadoria dos eventos que nunca mais esta boa para o consumidor na era da internet.

Com um mercado aquecido e a música brasileira em alta, o padrão dos shows de nomes nacionais passou a seguir as mesmas bases das grandes  internacionais em estádios. Muitos sucessos mas, também, muitos fracassos. O que novamente nos leva a analisar e  entender a importância de um conteúdo com demanda, diferenciado e bem trabalhado. O “comum” já não é mais fácil de vender, e os consumidores, embora estejam aptos a investir cada vez mais em experiências culturais, também são impactados por uma multiplicidade de opções de compra.

Vale mencionar que o mercado está pedindo mais conteúdos novos, mas a realidade financeira dos projetos como mencionei anteriormente está cada vez mais difícil de fechar a conta e a oferta de grandes shows mesmo que com conteúdos saturados está cada vez maior. Isso gera um problema sério de reciclagem do mercado, de oportunidade para novos artistas e casas de pequeno porte. Os pequenos palcos estão escassos, e o consumidor não está mais vendo novos artistas fazerem parte de sua rotina, ou de seus investimentos. Nos últimos 4 anos, passamos a descobrir novos artistas nos festivais, mas agora que a conta está mais difícil de fechar, a pergunta que fica é: como vamos descobrir esses novos artistas?

Nesse cenário, entender a jornada do consumidor se torna cada vez mais essencial. A experiência não começa quando o público entra no evento, mas muito antes, na descoberta do conteúdo, na decisão de compra e em todas as etapas que envolvem a participação. É preciso considerar desde a facilidade de acesso e a conveniência até os custos com transporte, alimentação, hospedagem e ingresso. Afinal, o investimento do consumidor vai muito além do valor do ticket. Criar uma experiência relevante também significa compreender quanto ela custa para quem participa e como esse conjunto de fatores influencia sua decisão. Para os projetos, o desafio é encontrar o equilíbrio entre entregar valor, proporcionar uma experiência memorável e construir uma operação economicamente sustentável.

Qual é o resultado? Mais tempo para avaliar e decidir, com a compra sendo definida cada vez mais perto da data dos eventos, e não com a antecedência de quando as vendas são abertas. Com exceção, claro, dos eventos que trazem conteúdos aguardados, inéditos ou diferenciados — aqueles que já contam com uma demanda reprimida.

No meu ponto de vista, o futuro, ou pelo menos os próximos cinco anos, está nas mãos do branding, do bom posicionamento e da retenção de demanda. O futuro será liderado pelas marcas e suas comunidades, sejam elas de artistas ou de eventos culturais. Já não basta mais montar a estrutura de um palco, oferecer um bom show do ponto de vista musical e esperar que ele atraia o público. O interesse do mundo e do próprio brasileiro pelo Brasil facilitou o acesso aos conteúdos, assim como o investimento no setor permitiu mais criações. Mas o desafio agora é entender qual conteúdo de fato vai vingar — e, principalmente, como fazer com que ele seja relevante para o público antes, durante e depois da experiência.

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