Djavan lança o álbum “Improviso” e mostra que o amor é seu maior jazz
Foto: Mar+Vin
Djavan estreia nesta terça-feira, 11, Improviso, seu 26º álbum de estúdio, pela Luanda Records/Sony Music com 11 canções inéditas e uma regravação especial de “O Vento”, composta com Ronaldo Bastos e eternizada por Gal Costa.
Na mesma fase, o cantor está prestes a comemorar cinco décadas de carreira com a turnê “Djavanear 50 anos. Só Sucessos”, que estreia em 9 de maio de 2026 no Allianz Parque, em São Paulo, antes de rodar mais dez cidades brasileiras com um repertório que atravessa sua discografia.
Em conversa com o TMDQA! pouco antes do lançamento, o artista contou as histórias imprevisíveis que permeiam seu mais novo trabalho, incluindo uma música que poderia ser de Michael Jackson, e também refletiu sobre o reencontro de sua música com a geração Z e o prazer de compor como quem descobre o mundo pela primeira vez.
O improviso que eu quero continuar perseguindo é fazer sempre novos discos, novas canções. Com uma carreira longa como a minha, isso não é simples. Você tem que realmente se entregar a isso, e no meu caso não é tão difícil, porque é o que eu mais quero na vida. É isso que me mantém vivo. E se teve algum improviso que deu errado, eu esqueci.
Djavan em fala ao TMDQA!
Improvisar é responder ao imprevisto, na música e na vida. É transformar o acaso em caminho. No caso de Djavan, os improvisos sempre estiveram presentes. O que muda agora é que ele lhe dá nome. Em Improviso, seu 26º álbum, três anos após o disco D(2022), o artista explicita o princípio que guiou toda a sua obra: a intuição como motor criativo e o amor como território de risco.
“Ir atrás do amor é um jazz”, canta no single lançado em setembro, “Um Brinde”.
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Foi essa mesma disposição para o improviso que moldou um dos momentos mais decisivos de sua vida. No início da carreira, inseguro sobre o espaço de sua música no Brasil, Djavan acreditava que teria mais chances se tivesse nascido nos Estados Unidos.
Essa ideia ganhou força quando, após sair da EMI, recebeu da Sony a proposta de se mudar para o país e gravar lá o disco Luz (1982), sua estreia pela gravadora. A aposta era que sua mistura de ritmos brasileiros e harmonias sofisticadas alcançaria o mundo com mais rapidez a partir do mercado norte-americano. Mas Djavan improvisou…
“E eu me senti num impasse muito grande, porque isso foi o que eu sempre sonhei. Aí, nesse momento, na véspera de se concretizar, eu pensei: ‘gente, mas como é que eu vou viver sem a cultura brasileira?’ Cantando em inglês, compondo em inglês. Sem tudo o que o Brasil tem para me oferecer… Essa diversidade, cada região tem uma influência distinta, tem uma música diferente. Isso é uma riqueza que eu não vou encontrar em lugar nenhum. Não vou, não fui. Eu acho que esse foi o maior improviso de toda a minha vida e deu muito certo.”
Djavan e a gen Z
Meio século depois, a decisão se mostra mais do que acertada. A música de Djavan atravessa gerações sem perder frescor, misturando R&B, samba, samba-canção e jazz em harmonias sofisticadas e letras que traduzem o amor em suas nuances.
“A minha música é uma música diversa. Por isso, ela abrange um público diverso também. Essa geração Z, que está interessada na minha música cada vez mais, ela descobre nessa música elementos com os quais ela tem se relacionado hoje em dia. Em outros artistas, em outras circunstâncias. Isso é uma alegria, porque não é nem que eu busque isso, não, mas conseguir isso é o objetivo alcançado.”
O compositor domina o equilíbrio entre reconhecer a própria assinatura e não se repetir, e uma das formas de reinventar a própria criatividade é estar por dentro do que há de novo.
Djavan contou que acompanha o que os filhos mais jovens escutam, especialmente InácioViana, de 18 anos, que integra a banda Trivia, que será lançada em breve no programa do Serginho Groisman, como conta com orgulho. Perguntado se acompanha o que acontece nas redes sociais, Djavan responde sem hesitar: sim, e com gosto. Para ele, as plataformas que reaproximaram sua obra do público jovem já fazem parte do trabalho e é o lugar onde sua obra segue “vivíssima”.
“Embora você tenha que ter cuidado para lidar com as redes sociais, porque a polarização, a falta de informação, ou a informação equivocada, os valores trocados, tudo isso são coisas que a internet trouxe, você precisa saber fazer essa leitura para não se equivocar também. Mas ao mesmo tempo é divertido, tem muita coisa interessante, que eu estou ali e estou ligado o tempo todo. As pessoas estão participando, mandando mensagem o tempo todo e eu tenho a sorte enorme de ser privilegiado [pelo meu público].Não se pode tratar isso como uma coisa banal, não é. Eu sou muito grato por tudo.”
Entre as faixas do novo álbum que falam diretamente com o público mais jovem está “Falta Ralar!”, música que nasceu da observação dos netos do compositor. Com leveza e graça, a canção aborda o desencontro entre maturidades que marca os primeiros relacionamentos da adolescência. Aqui, sob o olhar de uma garota de 15 anos apaixonada por um menino de 18.
“A mulher amadurece mais cedo do que o homem. Eu não estou impondo nenhum tipo de conceito novo nisso. Eu estou apenas esclarecendo um fato de que a mulher de 15 anos se relaciona com o menino de 18 e eles estão no mínimo ali, pau a pau, porque ela, em geral, amadurece mais cedo. É uma música graciosa, não é uma música em que eu esteja determinando nada ou sendo cínico com os meninos de 18, não. É uma música graciosa, é uma lembrança de como funciona as coisas, o amor, nessa faixa etária.”
Reinventando a criatividade
O álbum reflete os caminhos imprevisíveis do amor que todos enfrentamos ao longo da vida. “Um Affair” abre com uma visão libertária dentro de uma relação. Dos sambas djavanianos das paixões recém-nascidas em “Cetim” e “Para Nunca Mais Esquecer” às dores agudas da balada “Levei a Noite”, Djavan vasculha cada recanto da floresta amorosa.
Em “O Escolhido”, Djavan canta um amor que ainda nem existe, mas já é amor. Em “O Grande Bem”, eleva o sentir a dimensões quase camonianas, enquanto em “Sonhar” assume um tom mais político, falando sobre a guerra e o momento sombrio que atravessa o mundo. Já na faixa homônima, “Improviso”, o artista caminha por uma melodia cromática em que a dor impulsiona a criação, tornando o ato de compor ainda mais sublime.
“Talvez tenha algo a dizer que seja marcante do ponto de vista de conseguir sempre fazer, seja a alegria de sentar para compor uma canção nova. E o fato de ter pelo menos a ilusão de que estou conseguindo descobrir alguma novidade, isso é o que me mantém sempre esperto, sempre vivo ali, e sempre querendo fazer.”
Uma música quase lançada por Michael Jackson
Duas faixas de Improviso guardam memórias que atravessam décadas. Em “Pra Sempre”, Djavan transforma em canção uma história curiosa de sua trajetória: a melodia foi composta em 1987, quando Quincy Jones o convidou a escrever uma música para o álbum Bad, de Michael Jackson.
O artista chegou a criar a base, mas, tomado por insegurança, nunca enviou. Quase quarenta anos depois, decidiu finalizá-la como homenagem ao Rei do Pop, quem chegou a conhecer pessoalmente em um breve encontro.
“Eu não queria de jeito nenhum, os meninos [filhos] e quem sabia da história ficaram me instigando o tempo todo a gravar a música. E eu nunca achava que fazia sentido. Aí sentei e fiz a letra. E eu gostei muito, porque eu pude relembrar dele, uma pessoa tão importante, tão talentosa, que se foi tão cedo. Eu cheguei a conhecer o Michael lá. Não chegamos a ficar amigos, foi um encontro apenas, mas a minha afetividade por ele era imensa. Além dele ser um artista exuberante, era uma pessoa carente, digna de atenção. Eu sempre nutri uma amizade platônica maravilhosa.”
Já a regravação de “O Vento”, parceria com Ronaldo Bastos de 1987, é um tributo à amizade com Gal Costa, falecida em 2022. A canção, que a intérprete lançou no álbum Lua de Mel Como o Diabo Gosta (1987), ganha agora gravação inédita na voz do próprio Djavan. “A Gal, a minha maior intérprete, gravou 13 músicas minhas. Foi ótimo ter trazido essa música agora”, diz o cantor.
Sons e parceiros de sempre
Gravado no estúdio Em Casa, do próprio Djavan, Improviso conta com músicos fiéis que fazem o som do artista há décadas. A produção, direção artística e arranjos são do próprio compositor. Torcuato Mariano está nas guitarras e Marcelo Mariano, no baixo. Paulo Calasans e Renato Fonseca se complementam nos pianos e teclados. Na bateria, Felipe Alves. Marcos Suzano reforça o time na percussão.
A constância desses nomes se deve, segundo Djavan, à relação fluida construída ao longo do tempo. A cada novo trabalho, sua busca por caminhos inesperados exige o apoio de instrumentistas que já dominam o seu código, aqueles de quem, com pouquíssimas palavras, ele consegue extrair combinações de sons que nem mesmo conhece de antemão, apenas intui que existam.
Na parte visual, Djavan reedita a parceria com Giovanni Bianco, responsável pela direção de arte de D, seu álbum anterior. O trabalho fotográfico é assinado pela dupla Mar+Vin (Marcos Florentino e Kelvin Yule), e o figurino é de Claudia Kopke.
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Crédito: Mar+Vin
Conselhos de um griô
Para novos artistas e para as cenas que surgem, Djavan tem muito a ensinar. Fala com franqueza sobre os desafios da carreira musical, que ele descreve ser uma das mais difíceis que existem pela concorrência “absurda”, mas o essencial é ter clareza sobre o que se quer e sonhar grande.
“Com a internet adquiriu-se a ilusão de que todos podem. E é uma ilusão que cada vez é menos ilusão, porque as pessoas podem sim. Você precisa, para atingir o seu objetivo, nessa carreira ou em qualquer outra, ter muita força, muita certeza, não ter preguiça. E outra coisa: pensar alto. Não querer pouco. Porque o não querer pouco vai te fazer trabalhar dobrado. Não esmoreça nunca. Decida o que você quer. Por exemplo, dos 15 aos 25 anos é a idade mais crucial que tem para o indivíduo, porque é ali quando ele começa a formar o seu futuro.”
O artista também não ignora as barreiras raciais estruturais.
“Eu não coloco nem a coisa do racismo aí que dificulta ainda mais, porque se você é preto, você não pode trabalhar dobrado, tem que trabalhar três, quatro, cinco vezes mais para chegar onde um branco chegaria com mais facilidade.”
A própria definição de seu caminho veio cedo. Aos 15 anos, numa aula prática de química, Djavan viu um violão jogado no canto da parede. Antes disso, sonhava ser jogador de futebol, como já contou ao jornalista Felipe Ernani, do TMDQA!, sobre sua relação com o esporte. Era camisa 10, o cara que pensa e vê o jogo todo, mas que ele conta ter sido um improviso que ‘não deu certo’, em tom de humor, e um negaceio do destino para Djavan chegar na música.
E ele se lembra exatamente do momento em que sentiu que aquele era seu futuro.
“Quando eu abracei o violão, eu senti uma empatia tão grande. Achei que aquilo era eu. Aquele violão foi determinante para o meu futuro, porque foi ali onde eu defini o que realmente eu queria ser. Aí o futebol foi para o espaço. Foi impressionante. Foi o violão o momento exato onde eu decidi que ia ser músico.”
Meio século depois daquele abraço, Djavan, aos 76 anos, segue improvisando. Sua persistência é, por si só, um presente para a música brasileira, e um convite para que cada ouvinte improvise à sua maneira.
Turnê “Djavanear 50 anos. Só sucessos”
09 de maio – São Paulo – Allianz Parque 23 de maio – Salvador 30 de maio – Fortaleza 13 de junho – Curitiba 27 de junho – Brasília 18 de julho – Belo Horizonte 01 de agosto – Rio de Janeiro 29 de agosto – Florianópolis 24 de outubro – Belém 31 de outubro – Recife 05 de dezembro – Maceió
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