Angra: 520 anos entre canibais, piratas, desenvolvimento e cartões-postais

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Igreja Nossa Senhora do Carmo em registro de 1953. (Foto: IBGE)

Angra dos Reis – Em 6 de janeiro de 1502, uma expedição portuguesa comandada pelo navegador Gonçalo Coelho chegou a uma enseada já habitada por povos originários, entre eles tamoios e tupinambás, que ocupavam extensas áreas do litoral sudeste. Àquele território, descrito pelos europeus como um “paraíso na terra”, foi dado o nome de Angra dos Reis, em referência aos Três Reis Magos e à data da chegada, o Dia de Reis.

Antes da presença portuguesa, a região integrava uma complexa rede indígena de ocupação, circulação e trocas, com aldeias distribuídas ao longo da costa e dos rios. A partir do século XVI, a Baía da Ilha Grande passou a despertar interesse estratégico e econômico, o que resultou em sucessivos conflitos entre colonizadores e povos originários, além da presença de corsários e piratas atraídos pelas rotas marítimas e pela dificuldade de defesa do litoral.

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Pescadores em frente ao Mercado de Angra dos Reis em registro de 1955. (Foto: IBGE)

Foi nesse contexto que, em 1552, o aventureiro alemão Hans Staden passou pela região. Anos depois, em sua obra publicada em 1557, ele relatou a captura por indígenas tupinambás, chefiados por Cunhambebe, um dos mais importantes líderes indígenas da costa brasileira naquele período.

Seus relatos, frequentemente associados à prática do canibalismo ritual, são hoje analisados com cautela por historiadores, por refletirem a visão europeia do século XVI e não um registro antropológico isento. Ainda assim, tornaram-se uma das principais fontes documentais sobre os povos indígenas do litoral e sobre áreas que hoje integram Angra dos Reis.

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Colégio Naval em Angra dos Reis, registro dos anos 1950. (Foto: IBGE)

Hans Staden também foi responsável por registrar, pela primeira vez, a localidade de Mambucaba, vila que atualmente atrai visitantes ao longo de todo o ano. Situada às margens do rio de mesmo nome, a região era originalmente ocupada por indígenas e passou a ser incorporada ao processo de colonização portuguesa após intensos confrontos. Com a consolidação do domínio colonial, Mambucaba foi utilizada para atividades como a extração de óleo de baleia, prática comum no litoral brasileiro entre os séculos XVII e XVIII.

No século XIX, a vila assumiu papel relevante na economia regional, tornando-se um porto exportador de café e ponto de entrada de pessoas escravizadas. A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário contribuiu para a organização urbana e para o fortalecimento da localidade como referência regional. O conjunto arquitetônico e urbanístico de Mambucaba foi tombado em 1968 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em reconhecimento à sua importância histórica.

Ao longo do tempo, Angra dos Reis deixou de ser um polo extrativista e comercial para se consolidar como um dos principais destinos turísticos do país. A criação do Parque Nacional da Ilha Grande, em 1937, e a instalação do Complexo Nuclear Almirante Álvaro Alberto, inaugurado em 1985, marcaram novas fases do desenvolvimento local. Com mais de duas mil ilhas e praias conhecidas internacionalmente, como Lopes Mendes e a Azeda, o município passou a integrar rotas nacionais e internacionais de turismo.

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Registro de um dia comum no centro de Angra, em meados do século XX. (Foto: IBGE)

Hoje, Angra dos Reis convive com o desafio de equilibrar crescimento econômico, preservação ambiental e memória histórica. A Mata Atlântica, a Baía da Ilha Grande e os sítios históricos exigem políticas de proteção diante do avanço imobiliário e das mudanças climáticas. Iniciativas de gestão ambiental e cultural buscam conciliar esse patrimônio com as demandas de uma cidade que carrega, em seu território, séculos de disputas, encontros e transformações.

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Hans Staden, o aventureiro e mercenário alemão que por pouco não virou “prato principal”. (Foto: Reprodução)

Agatha Amorim

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LR

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