3 bandas para conhecer a nova cena alternativa da Argentina

Se tem uma coisa na qual a Argentina não parece disposta a economizar é em criatividade. Em meio a um cenário econômico complicado, daqueles que fariam qualquer um querer colocar os fones, deitar na cama e fingir que o mundo não existe, a nova geração da cena alternativa resolveu fazer justamente o contrário: aumentar o volume.
Bandas e artistas estão bebendo de fontes cada vez mais diversas, misturando referências, experimentando novas sonoridades, colocando instrumentos onde talvez eles não devessem estar e, principalmente, abrindo espaço para vozes e estéticas que tornam a cena muito mais plural. O resultado é uma música que pode ser pop sem ser óbvia, rock sem precisar ressuscitar o passado e experimental sem transformar a audição em um teste de resistência.
E talvez seja justamente nos momentos mais difíceis que a arte encontre mais motivos para florescer. (A gente sabe bem disso por aqui, né?).
Politizada, inquieta, inventiva e, muitas vezes, deliciosamente caótica, a nova música alternativa dos nossos vizinhos está mostrando que ainda há muita coisa acontecendo do outro lado da fronteira, e que talvez seja hora de prestar mais atenção.
Por isso, reunimos 3 nomes que estão ajudando a desenhar esse novo mapa sonoro. Coloque os fones e venha conhecer com a gente!
3 bandas para conhecer a nova cena alternativa da Argentina
Usted Señalemelo
O Usted Señalemelo é uma daquelas bandas que tornam difícil ficar parado em uma única definição de indie. Vindo de Mendoza, o trio mescla rock, psicodelia, pop, funk, eletrônica e música latino-americana sem parecer preocupado em escolher um caminho só, e isso é muito legal.
Aqui existem sintetizadores, guitarras, texturas experimentais e referências que vão muito além das fronteiras do país. Ainda assim, eles também trabalham com algo profundamente mendocino em sua identidade, um detalhe que faz toda a diferença em uma cena musical que frequentemente é associada somente a Buenos Aires.
Longe do principal centro cultural argentino, Juan Saieg, Gabi Cocó Orozco e Lucca Beguerie encontraram espaço para construir uma sonoridade própria, absorvendo influências de diferentes lugares sem abrir mão de suas origens.
Essa inquietação aparece desde o primeiro álbum, autointitulado, lançado em 2015 e produzido pelos próprios integrantes. Ali já estavam as pistas de uma banda interessada em misturar referências e experimentar sem se prender a fórmulas.
Dois anos depois, II aprofundou essa busca e ajudou a definir a identidade que os acompanharia dali em diante, com uma combinação cada vez mais evidente de indie rock, psicodelia, pop e música eletrônica.
Continua após o vídeo
Depois de um intervalo de alguns anos, atravessado pela pandemia, eles voltaram em 2023 com Tripolar, um disco ambicioso que ampliou ainda mais os horizontes. O álbum recebeu uma indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Pop/Rock e venceu o Prêmio Gardel de Melhor Álbum de Rock Alternativo. A repercussão também ultrapassou as fronteiras argentinas: a banda embarcou em uma turnê internacional e chegou ao Lollapalooza Chicago, tornando-se a primeira banda argentina a se apresentar no festival.
Mas o sucesso de Tripolar não significou uma “fórmula” para eles; muito pelo contrário, a vontade de fazer diferente aparentemente sempre esteve nos planos. Em 2026, eles lançaram Términos & Condiciones, colocando a música eletrônica no centro da experiência.
Ousado e inovador da maneira certa, produzido majoritariamente no computador, o trabalho explora drum’n’bass, synth-pop e texturas experimentais, afastando-se da estrutura tradicional de uma banda de rock sem abandonar a curiosidade que sempre guiou sua trajetória. Legal, né?
O nome do álbum também aponta para uma inquietação bastante contemporânea e presente entre os mais jovens com tanta tecnologia ao alcance das mãos. Exposição, redes sociais e compartilhamento de dados atravessam o conceito do disco, que transforma uma expressão familiar da vida digital em ponto de partida para novas explorações sonoras.
Talvez seja justamente essa disposição para mudar de pele e estilo que torne o Usted Señalemelo tão interessante. A cada lançamento, eles parecem dispostos a desmontar parte do que construiram para descobrir o que mais podem fazer com isso!
E essa curiosidade não fica restrita ao estúdio: a força das apresentações ao vivo também ajudou a levar a banda a palcos da LATAM, dos EUA e da Europa. Em vez de apenas reproduzir o que se ouve nos discos, eles fazem da música uma experiência em constante transformação, e mostram que o indie argentino tem muito mais a oferecer do que qualquer rótulo seria capaz de resumir.
E o que acontece quando os caminhos do indie argentino cruzam a fronteira brasileira? No caso do Usted Señalemelo, a relação vai muito além de conquistar novos ouvintes. O trio também encontra inspiração na música feita no nosso país.
Em entrevistas, eles ja citaram nomes de artistas brasileiros como suas referencias, variando de Djavan, Caetano Veloso, O Terno a Boogarins. É uma troca muito legal que ajuda a desmontar aquela ideia de que a música latino-americana precisa circular dentro de caixinhas. Afinal, se os brasileiros podem encontrar algo novo nas guitarras e nos sintetizadores do lado de lá, os argentinos também têm muito a descobrir na diversidade sonora produzida do lado de cá.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das partes mais interessantes dessa aproximação: perceber que, apesar das diferenças de idioma e de cena, compartilhamos curiosidades, referências e uma vontade de descobrir sons que escapem do óbvio.
Perras on the Beach
Bom, se o Usted Señalemelo gosta de desafiar as fronteiras do indie argentino com experimentações sonoras, o Perras on the Beach é uma banda que prefere bagunçar tudo com muito deboche.
Eles têm um tipo de música que para algumas pessoas pode soar como desleixada e descompromissada, como se tivesse sido gravada entre uma festa e outra, entende? Mas pedimos para você ter um pouco de calma e não se enganar: por trás desse aparente “caos” existe uma identidade muito própria, e é justamente nisso que mora boa parte do charme deles.
Com guitarras psicodélicas, melodias relaxadas, lo-fi e letras que passeiam por romances, amizades, noites intermináveis e muito dilemas da juventude, eles ajudaram a dar forma a uma geração do indie argentino que ganhou força a partir de 2010. As referências vão de Mac DeMarco a Tame Impala, com pegadas de Pink Floyd, mas reduzir o Perras on the Beach a essa mistura seria perder o que os torna tão especial.
Há algo de genuinamente caseiro nas gravações, uma irreverência que atravessa as composições e uma atitude punk na maneira de ocupar o próprio espaço! Aqui a música não parece fazer questão de impressionar, e é isso que acaba fazendo com que eles conquistem o público.
Continua após o vídeo
O grupo lançou dois álbuns de estúdio, Chupalapija e Flow de Cuyo, além de um EP em 2019 e do registro ao vivo Mis Amigxs, lançado em 2022. Infelizmente, a história da banda teve uma pausa antes que muita gente estivesse pronta para se despedir. Por volta de 2020, eles decidiram fazer outros projetos musicais e carreira solo. Mas surpreendendo todo mundo, em 2023, eles apareceram com “El Tiempo”, uma faixa inédita resgatada de gravações anteriores, e isso ajudou a trazer de volta um pouco daquele universo torto que eles mostravam e reacendeu uma saudade nos fãs.
Neste ano, o Perras on the Beach decidiu voltar aos palcos para celebrar os dez anos do primeiro álbum, transformando o reencontro em uma oportunidade de revisitar um dos discos mais emblemáticos de sua trajetória. A volta também colocou novamente em cena uma pergunta: será que essa história ainda tem capítulos inéditos pela frente?
Por enquanto, não dá para cravar o que isso representa para o futuro, mas para quem ainda não os conhece, talvez este seja o momento perfeito para descobri-los. Afinal, poucas coisas são tão convidativas quanto uma banda que faz questão de não se levar tão a sério sem nunca abrir mão da própria personalidade. Precisamos disso!
Mi Amigo Invencible
Se existe uma banda essencial para entender como a cena alternativa argentina chegou até aqui, essa banda é o Mi Amigo Invencible.
Há quase duas décadas, o grupo vem construindo uma trajetória marcada pela experimentação, pela independência e pela capacidade de mudar de pele sem perder a própria identidade, e eles fazem isso como poucos. Mais do que acompanhar a evolução do indie, eles ajudaram a abrir caminhos para quem veio depois.
Por aqui, a proposta é um pouco diferente da irreverência juvenil de outras bandas da cena. Eles apostam em um indie rock mais emocional e contemplativo, com guitarras que alternam entre a aspereza e a delicadeza, muitas camadas psicodélicas e letras que parecem procurar respostas para aquelas pequenas contradições que fazem parte da nossa vida. Sabe aquela música que desperta alguma coisa dentro de você, mesmo quando é difícil explicar exatamente o quê? A discografia deles está cheia desses momentos!
A história começou no oeste do país, longe do circuito tradicional. Desde o início, eles trilharam um caminho próprio, construindo seu público aos poucos, sem depender da fórmula convencional do sucesso comercial. E talvez essa liberdade ajude a explicar por que eles continuam encontrando novas maneiras de surpreender.
Continua após o vídeo
Ao longo da carreira, eles passearam pelo rock alternativo, pelo post-punk, pela psicodelia, pelo folk e até por um pop. Em alguns momentos, as guitarras apresentam nostalgia; em outros, sintetizadores e ritmos mais intensos abrem espaço para uma sonoridade quase dançante. É diferente e divertido, e essa capacidade de transitar entre atmosferas sem soar como uma banda “em busca de alguma coisa” é justamente um dos seus maiores trunfos. Quando você escuta, sente que existe algo de familiar nas músicas, mas raramente elas ficam exatamente onde você espera.
Entre as três bandas que apresentamos aqui, o Mi Amigo Invencible também tem a discografia mais extensa: são nove álbuns de estúdio, com Arco y Flecha, de 2024 e com uma edição deluxe de 2025, sendo o mais recente. E aqui temos mais uma prova de que eles não foram apenas espectadores da ascensão do indie argentino: estavam ali antes de a cena ganhar projeção, ajudando a construir esse espaço por meio de discos, experimentações e colaborações com outros artistas.
E a história está longe de parecer encerrada, ainda bem. Neste ano, os integrantes revelaram que planejam lançar o décimo álbum em 2027, quando completam 20 anos de trajetória. Ainda não existe nenhum spoiler sobre o que vem por aí, mas, se há algo que eles nos ensinaram ao longo desses anos é que tentar prever seu próximo passo pode ser menos interessante do que simplesmente apertar o play e desfrutar.
Afinal, poucas coisas são tão empolgantes quanto acompanhar uma banda que, mesmo depois de tanto tempo, continua tratando a própria música como um território a ser descoberto.
O post 3 bandas para conhecer a nova cena alternativa da Argentina apareceu primeiro em TMDQA!.
Dais Sampaio

LR




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.