“A Corda Bamba no Pescoço”: em tempos estranhos, O Teatro Mágico continua a trazer encanto

“A gente não está só na corda bamba, nem só com a corda no pescoço. Estamos com a corda bamba no pescoço.” Foi com essa definição visceral que Fernando Anitelli, líder d’O Teatro Mágico, resumiu o espírito da nova turnê que teve seu pontapé inicial no último domingo (10), no Cine Theatro Brasil, em Belo Horizonte. Se a turnê anterior era um afago nostálgico de reencontro, o novo espetáculo é um despertar urgente, um grito poético lançado em meio ao caos da era dos algoritmos.
Belo Horizonte, cidade que historicamente “come pelas beiradas” e acolhe a trupe com um fervor quase religioso, foi o cenário escolhido para a estreia dessa jornada que funde o lúdico ao combativo. Entre narizes de palhaço e críticas sociais cortantes, Anitelli propõe uma resistência pela ternura, provando que a alegria, em tempos de ódio, é um ato político.
Continua após o post
A Trilogia das Águas e o Amor Revolucionário
Antes de subir ao palco, a trupe preparou o terreno com três singles estratégicos lançados nas últimas semanas. As faixas funcionam como bússolas para o conceito da turnê: a busca por um “amor que faz revolução”, fugindo dos clichês açucarados das novelas para enfrentar a “asfixia” do presente.
O repertório do show costura essas novidades com clássicos que ganharam uma roupagem mais densa. Músicas como “Feito Rio (Fora do Leito)”, com a digital de Humberto Gessinger, e a emocionante “A Vida se Revela”, em parceria com o mestre Flávio Venturini, trouxeram camadas de sofisticação melódica e arranjos de cordas que elevaram o tom do espetáculo.
Continua após o vídeo
TMDQA! Entrevista: Fernando Anitelli e a Resistência Poética
Em uma conversa exclusiva e profunda com o TMDQA!, Fernando Anitelli detalhou o processo criativo por trás dessa fase, abordando desde o genocídio na Palestina até a influência de clássicos do rock progressivo na estética da trupe. Abaixo, confira os principais momentos do papo:
TMDQA!: Fernando, antes de mais nada, muitíssimo obrigado por nos receber, estamos muito felizes com este papo! Gostaria de começar pelo título da turnê: “A Corda Bamba no Pescoço”. Se pararmos para pensar, o nome sugere um passo além do simples risco de equilíbrio, evocando uma sensação de urgência, quase de asfixia. No atual cenário de tecnologia desregrada, como a trupe transforma esse sufocamento em movimento artístico sem perder a ludicidade, que é a marca registrada do Teatro Mágico?
Fernando Anitelli: Ótimo, Edu! Que pergunta bacana. O nome da turnê surge desse “combo” que queremos apresentar. No ano passado, fizemos a turnê O Reencontro, que era um resgate afetivo: canções dos primeiros álbuns e a participação de personagens que somaram na nossa história. Foi um reencontro com a própria trupe e com o público daquela época. Este ano, sentimos que as novas composições traziam outro “tempero”. O primeiro sinal é o planeta em guerra. Essa tecnologia desregrada leva as pessoas a terem a violência como padrão de diálogo – seja nas redes sociais, no racismo, na misoginia ou no patriarcado. Tudo ficou muito evidente e triste.
Hoje, ao rodar a timeline do celular, todo mundo se sente perdido – a pergunta é: “Que mundo é esse?”. Sentimos que não estamos apenas na corda bamba, nem apenas com a corda no pescoço. Estamos com a corda bamba no pescoço. O bico está pegando de tal maneira que o algoritmo tenta nos ensinar que é natural ver um genocídio acontecer enquanto a tela rola, ou que é natural tratar mulheres com violência; e não é. É criminoso. Precisamos trazer esses assuntos à tona sem perder a poesia e a “resistência da alegria”. Não podemos perder a ternura ao tocar em temas silenciados, como o massacre na Palestina. A solução e o remédio que encontramos é o amor. Mas não esse amor alienado de novela, e sim um amor capaz de fazer revolução.
TMDQA!: Você mencionou que o espetáculo traz esse olhar crítico temperado com humor. Em tempos de polarização e anestesia social, o palhaço do Teatro Mágico assume hoje um papel mais político, mais terapêutico ou um pouco dos dois?
Fernando Anitelli: Eu acho que somos todos seres políticos. O palhaço do Teatro Mágico sempre foi político, embora nunca partidário. Sou um político das pautas: sou contra a escala 6×1, contra a falta de taxação das bets que geram doenças psicossociais… enfim. Desde o primeiro álbum, já trazíamos questões pertinentes ao coletivo. O palhaço nunca deixou de tirar sarro para mostrar que o humor é uma forma de resistência.
O Charlie Chaplin era político. O Bobo da Corte era político. Cutucar instituições que não são honestas através do riso torna a mensagem mais acessível.
Na nossa trajetória, fazemos isso com piadas e poesias combativas. Então sim, o público vai dar risada, mas também enfrentará reflexões. O palhaço se coloca no palco com o espírito do Chaves – que é um personagem profundamente político por ser o único que dorme no barril enquanto o mundo ignora sua solidão.
TMDQA!: Sobre “Do Rio ao Mar”, a faixa que homenageia as famílias palestinas: houve receio de que a mensagem política ofuscasse a música?
Fernando Anitelli: Decidimos falar a real. O algoritmo censura termos como “genocídio”, então fomos estratégicos na letra: “Eram crianças, eram famílias… a humanidade resolveu silenciar”. A imagem já está na cabeça de todos. A gaita do Gabriel Grossi fala de paz, fazendo citações a Gilberto Gil.
É irônico: recebemos e-mails de pessoas dizendo que não iriam ao show por causa do título da música. Elas aceitam o massacre, mas se chocam com o nome de uma canção. Não é religião; é crítica a um Estado genocida.
TMDQA!: A turnê estreou ontem (10 de maio) em Belo Horizonte. Existe um simbolismo em começar em Minas Gerais? Dizem que, se uma banda vence em Minas, faz sucesso no Brasil todo…
Fernando Anitelli: Minas tem um carinho gigante pelo Teatro Mágico e vice-versa. BH concentra uma comunidade — não gosto de chamar de fã-clube — que nos acompanha de forma muito ativa. Começar por lá é como estar em casa, com público que canta junto e energia lá no alto. De lá, vamos para São Paulo agora no dia 16.
TMDQA!: Se você pudesse resumir o sentimento de quem sai do teatro hoje em um verso, qual seria?
Fernando Anitelli: “Preciso dos meus vícios me despir / Ainda há muito de mim para dar / Se o espelho não reflete mais quem sou / Refaço-me para recomeçar.”
Continua após o post
A mensagem é clara: o amor vence
A estreia em Belo Horizonte confirmou que o público mineiro não apenas assiste ao Teatro Mágico; ele o atravessa. A “comunidade” (termo que Anitelli prefere ao invés de fã-clube) transformou o teatro em um organismo vivo de bolas, bexigas e coros potentes.
Com uma trupe mais enxuta e um show inédito, a turnê “A Corda Bamba no Pescoço” se firma como o capítulo mais maduro e corajoso de Fernando Anitelli. É um convite para sonhar acordado em um mundo que quer nos ver dormindo.
A jornada continua e desembarca em São Paulo, seguindo para o nordeste do país pós a apresentação na capital paulista. Ingressos e informações para as demais datas estão disponíveis acessando aqui.
A vida se revela, e o Teatro Mágico nos ensina a não desviar o olhar…
OUÇA AGORA MESMO A PLAYLIST TMDQA! BRASIL
Música brasileira de primeira: MPB, Indie, Rock Nacional, Rap e mais: o melhor das bandas e artistas brasileiros na Playlist TMDQA! Brasil para você ouvir e conhecer agora mesmo. Siga o TMDQA! no Spotify!
O post “A Corda Bamba no Pescoço”: em tempos estranhos, O Teatro Mágico continua a trazer encanto apareceu primeiro em TMDQA!.
Eduardo Ferreira
“A Corda Bamba no Pescoço”: em tempos estranhos, O Teatro Mágico continua a trazer encanto

LR
“A Corda Bamba no Pescoço”: em tempos estranhos, O Teatro Mágico continua a trazer encanto




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.