Camila Rebouças, sócia-diretora da Join Entretenimento e fundadora do Backstage Lab, comenta sobre os bastidores do Show Business

Há muitas formas de entrar na indústria da música. Muita gente entra por acaso: um amigo que chama, uma balada que virou profissão… mas tem gente que entra ainda como estudante. Este é o caso de Camila Rebouças.
Quando era estudante de Produção Cultural na Universidade Federal da Bahia, começou como estagiária numa produtora pequena que, ao mesmo tempo, desenvolvia projetos de artistas independentes baianos e atendia ao produtor musical de Ivete Sangalo. Foi o início de uma trajetória que soma mais de 20 anos ao lado da cantora e passagens por algumas das produções mais ambiciosas do entretenimento ao vivo brasileiro, do DVD gravado no Madison Square Garden ao Global Citizen Festival, passando pela produção de vídeo do histórico show de Madonna em Copacabana.
Hoje sócia-diretora da Join Entretenimento ao lado de Fábio Almeida e fundadora do Backstage Lab, iniciativa criada durante a pandemia para capacitar e dar visibilidade a profissionais de bastidores, Camila transita entre dois mundos: a produção executiva de grandes espetáculos e a militância por condições de trabalho mais dignas para quem sustenta esses espetáculos por trás dos palcos.
Na conversa a seguir, ela fala sobre o que aprendeu em cada etapa dessa trajetória, os bastidores de projetos como A Grande Noite Bossa Nova (Cannes Golden Lion 2023) no Carnegie Hall em NY, a relação da Join com marcas como Globo, Heineken e Bradesco, e os gargalos estruturais desde informalidade a segurança do trabalho que ainda travam o crescimento do setor no Brasil.
TMDQA! Entrevista Camila Rebouças
TMDQA!: Você entrou na indústria ainda como estagiária numa produtora baiana e hoje é referência em produção executiva e direção de execução. Que etapa da sua trajetória você acha que mais te formou para o mercado como um todo?
Camila Rebouças: Eu diria que ainda estou me formando, porque o mercado está sempre em transformação. Tive a sorte de começar já com alguma formação teórica, estudando Produção Cultural, o que não é comum nesse mercado, onde a maioria entra por indicação de amigos ou familiares. Mas a minha grande escola mesmo foi entrar numa produtora pequena, de no máximo 12 funcionários, onde a gente fazia de tudo. Eu trabalhava simultaneamente em projetos de artistas independentes baianos, com verba mínima, e no mesmo lugar atendíamos o produtor musical da Ivete Sangalo. Caí de paraquedas no mundo do show business em grande escala enquanto ainda aprendia o básico, essa mistura de dois universos completamente diferentes dentro de uma estrutura pequena me ensinou demais.
TMDQA!: Depois de percorrer todas essas etapas, o que você considera hoje um diferencial nessa área, com todas as tecnologias que têm surgido?
Camila: Pra mim, diferencial é experiência. Estar ligada aos rumos que o mercado está tomando. A IA está fazendo um 360 na produção musical, e não dá pra demonizar isso, mas também não dá pra achar que ela resolve tudo.
A IA não gerencia equipe, não identifica e resolve conflito interno, não tem sensibilidade humana para entender os detalhes que ficam escondidos numa produção e esses detalhes normalmente são humanos, envolvem ego, disposição, relação entre pessoas.
Uso muito a metáfora da engrenagem: toda produção é uma grande engrenagem, e as pessoas só enxergam a peça gigante, que é o artista. Acham que tudo depende 100% dele, mas se uma peça pequena não funciona, a engrenagem trava e o artista não consegue fazer o que está ali pra fazer.
TMDQA!: Teve algum projeto internacional que te exigiu repensar completamente o processo de produção que você já dominava?
Camila: Repensar completamente, não. Cada projeto vai somando um repertório, como se fossem músicas novas que eu vou guardando. Mas o Madison Square Garden foi, sem dúvida, um divisor de águas. Eu tinha 27 anos, num cargo de coordenação, na arena mais icônica do mundo, com um show inteiro em torno da Ivete. Trabalhamos com equipes de vídeo da Inglaterra e dos Estados Unidos, e aprendi diferenças culturais gigantescas em Nova York, o sistema de sindicatos é extremamente rígido: existe hora certa pra parar, pra descansar, e ninguém abre exceção. Aqui no Brasil, ninguém se preocupa tanto com carga horária de fornecedor. Depois desse projeto, ficou aquela sensação: se deu certo lá, dá certo em qualquer lugar.
TMDQA!: Incrível! Você manteve uma parceria de mais de duas décadas com Ivete Sangalo, né? Como essa relação de longo prazo muda a forma como você planeja e executa um projeto, comparado a produções pontuais?
Camila: Ao longo desses 20 anos, você desenvolve um nível de intimidade e confiança no trabalho que facilita muito ler o que ela quer e ela também consegue transmitir isso pra mim com mais facilidade. Minha função sempre foi entender artisticamente os desejos dela e transformar aquilo em prática: montar a equipe certa, buscar referências, apresentar propostas e ir construindo, junto com ela, esse quebra-cabeça que resultava em produções históricas. Teve projeto que levamos mais de um ano desenvolvendo, eu viajando com ela, ficando dentro da casa dela pra construir cada detalhe. Ver o resultado final no palco, o retorno do público, e ela saindo de lá com aquele sorriso de ponta a ponta é extremamente gratificante.
TMDQA!: Produzir o vídeo do “The Celebration Tour” da Madonna em Copacabana e, dirigir a produção de “A Grande Noite Bossa Nova” no Carnegie Hall, em Nova York, são operações de escala e cultura completamente diferentes e desafiadoras. O que muda na sua abordagem entre um projeto de audiência de massa como o de Copacabana e um espetáculo mais intimista como o do Carnegie Hall?
Camila: É bem diferente por causa do nível de nuances. O Carnegie Hall é um xodó especial: o projeto nasceu de uma ideia da própria Join, de replicar, 60 anos depois, aquela noite icônica de 1962 que reuniu Vinícius, Tom Jobim e João Gilberto, mas com protagonistas diferentes. Tivemos o Menescal, que esteve na primeira noite; o Daniel Jobim, carregando o legado do pai; o Seu Jorge; e a Dona Alaíde Costa, uma das mulheres que fizeram parte desse movimento musical original mas que foi apagada da primeira edição por ser mulher e negra. Colocá-la naquele palco foi extremamente simbólica e ainda rendeu um Cannes Golden Lion de reparação histórica. Apesar da escala física ser bem menor que outros projetos, o nível de cuidado e detalhe exigido foi enorme.
Já o Celebration Tour, da Madonna, tinha uma produtora gigante por trás, a Bonus Track, parceira da Live Nation no Brasil, e um nível de profissionalismo diferente de tudo que eu já tinha visto: 38 câmeras, equipe do mundo inteiro. Entrei a convite da produtora executiva de vídeo Amy Patten, que eu já conhecia de um projeto anterior com a Ivete, pra fazer a ponte entre a equipe internacional e a Globo, que fez a transmissão no Brasil. Foram duas formas de trabalhar completamente diferentes que, juntas, criaram uma terceira forma. Aprendi mais nesse projeto do que aprenderia em meses de curso fora do país.
TMDQA!: Sobre o Global Citizen Festival, como funciona coordenar a produção artística de um evento que reúne múltiplos artistas, causas e patrocinadores ao mesmo tempo?
Camila: Comecei a trabalhar com o Global Citizen no ano passado, na primeira edição deles no Brasil. São meses de trabalho remoto antes do evento, com equipe espalhada pelo mundo. Algo que só se tornou viável depois que a pandemia provou que esse formato funciona (no Madison, por exemplo, cheguei a morar três meses em Nova York pra fazer tudo acontecer presencialmente; hoje o time internacional chega só na semana do evento).
O que torna esse projeto especial é a combinação entre produção de nível internacional e uma causa maior: apoio a questões climáticas na Amazônia, causas indígenas, projetos de educação em parceria com a FIFA. O público se mobiliza em torno dessas causas pra ter acesso ao show gratuito, e isso amplifica o impacto além do evento em si. Trabalhar com artistas coerentes com essas causas, como o Chris Martin, é muito gratificante, no fim, todo artista ali está se doando a algo em que acredita.
TMDQA!: Como a Join se posiciona no mercado, produtora executiva, agência de live marketing, ou outra coisa?
Camila: A Join é hoje uma produtora de soluções. Nossa origem é aqui no Nordeste, na Bahia, e o nome já carrega o sentido de “juntar”, quando a gente junta boas ideias, bons parceiros de marca e bons artistas, o resultado é excelente.
A empresa tem quase 30 anos de história, com raiz em produção musical, mas foi se adaptando: hoje atendemos desde uma demanda artística específica de um grande artista até a criação de soluções pra marcas e, no melhor cenário, unimos as duas coisas. De uns anos pra cá, também passamos a desenvolver projetos próprios do zero, como foi o caso do Carnegie Hall.
TMDQA!: O que uma marca busca, na prática, ao contratar uma produtora como a Join, para estruturar uma operação de entretenimento ao vivo?
Camila: Depende dos valores da marca, mas, de forma geral, ela busca conexão e validação com o consumidor final. Antigamente, patrocínio era balão gigante e logo no telão, a marca estava associada ao evento e pronto. Hoje as pessoas exigem coerência: não basta patrocinar, é preciso ter conexão real com o público daquele evento e com os valores dele. Tudo isso se materializa, às vezes, em dois ou três dias de ativação com experiências.
TMDQA!: Falando um pouco sobre o Backstage Lab, um projeto idealizado por você. O que te fez identificar que faltava um projeto de capacitação voltado ao backstage?
Camila: Veio da pior forma possível. Eu mesma estava praticamente sem trabalho, migrando pra lives, mas o que mais me marcou foram as notícias chegando de gente próxima, muito boa no que fazia, que não conseguia colocar comida em casa. As relações de trabalho nesse setor são muito frágeis, a maioria trabalha sem vínculo empregatício, como prestador de serviço. Quando o artista para, não existe nenhuma obrigação trabalhista com essa pessoa. O Backstage Lab nasce como projeto de capacitação, mas também como projeto de visibilidade pra essas pessoas que ficaram completamente desamparadas.
Aqui no Nordeste, isso pesa ainda mais: enquanto São Paulo e Rio já têm instituições de formação consolidadas, na Bahia a gente não tinha nada parecido, muita gente aprende no “vou plugando o cabo aqui e ali” sem entender profundamente o que está fazendo. A mão de obra aqui ainda é escassa, se tem, por exemplo, 3 eventos corporativos ao mesmo tempo, precisa trazer gente de fora e a conta não fecha.
Inclusive, estivemos no Rio2C esse ano, justamente trazendo essa discussão. Foi isso que me fez criar o Backstage Lab, dar informação e capacitar as pessoas.
TMDQA!: Quais são hoje os principais desafios de formação e regulamentação que esses profissionais enfrentam?
Camila: O grande desafio ainda é a informalidade. Mesmo com produções internacionais cada vez mais vindo pro Brasil, a gente ainda tem uma restrição de acesso a grandes recursos, e estamos a anos-luz do que se faz lá fora em termos de tecnologia e recursos técnicos. Precisamos de investimento público e privado em capacitação, os artistas precisam de bons técnicos, e bons técnicos precisam ser formados, não aprender só na prática ao longo de décadas na estrada, um custo humano enorme pra quem já está com 50, 60 anos rodando turnê.
A cultura ainda é tratada, por muita gente, como gasto ou filantropia, quando na verdade é investimento, cada real investido em cultura, e na economia criativa gera retorno pro PIB do país. Além do acesso da cultura e do entretenimento ao público, que é importantíssimo. Por exemplo,o modelo da Coreia do Sul: o K-pop estourou porque houve investimento estratégico de soft power, assim como o Estados Unidos fez com Hollywood anos atrás. O Brasil precisa de pessoas mais capacitadas e investir mais no meio da economia criativa que gera um retorno bem importante pro país.
TMDQA!: Para fechar, depois de tantos anos na indústria, na sua opinião, o que mudou mais estruturalmente tanto pra melhor quanto pra pior?
Camila: O Brasil se profissionalizou, isso é fato. Mas ainda de forma desigual. Quando entrei, ainda peguei o auge das majors fonográficas, com orçamentos gigantescos, mas a produção de shows em si era muito amadora: sem EPI (Equipamento de Proteção Individual), sem qualidade técnica, tudo na base da gambiarra. Cheguei a viver a época das micaretas, com gente morrendo eletrocutada em fios de poste por falta de protocolo básico de segurança. Isso melhorou muito com a exigência de NRs (Normas Regulamentadoras) e certificações. Porém, ainda vemos casos como o de um profissional que morreu recentemente no show da Shakira, provavelmente por falta de condições e protocolos adequados. A terceirização da terceirização torna quase impossível pro produtor controlar tudo, e eventos climáticos extremos (como choveu no último Rock in Rio) são um fator de risco a mais que o setor ainda está aprendendo a lidar.
Por outro lado, tem uma coisa que impressiona quem vem de fora: a criatividade brasileira. A gente não tem os recursos que eles têm lá fora, mas tem a vontade de fazer dar certo, e isso resolve muito problema que, com a estrutura deles, provavelmente nem precisaria ser resolvido do nosso jeito.
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Nina Shimazumi

LR




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