Chico Buarque ganha releituras de rap, trap e R&B em “Chico 2.0”

Chico 2.0
Crédito: Ian Thommas

A obra de Chico Buarque chegou às plataformas digitais em uma nova roupagem no último dia 21 de agosto com o lançamento da primeira parte de Chico 2.0.

O projeto, assinado pela Central Única das Favelas (CUFA), pela FRecords, pela Tha House e pela Universal Music Brasil, reúne treze artistas de gerações e gêneros diferentes para recriar dez composições que atravessaram décadas da música brasileira. A segunda etapa do álbum está prevista para outubro.

A produção musical ficou a cargo de Felipe Poeta e Alê Siqueira, enquanto a articulação cultural do projeto reuniu Preto Zezé, Celso Athayde e Fábio Almeida. As faixas partem das gravações originais de Chico, mas ganham identidades novas conforme o repertório de cada intérprete, transitando por rap, trap, funk, R&B, samba, soul e nova MPB.

Felipe Poeta, que também assina a direção musical ao lado de Alê Siqueira, disse que a proposta foi inovar sonoramente sem abrir mão do respeito às harmonias e melodias originais, na tentativa de aproximar um repertório já consagrado de uma geração que acompanha a música urbana. Ele explicou:

Desde o começo, a ideia foi criar essa ponte entre a obra do Chico e a música urbana de hoje. Mesmo sendo letras escritas em outros contextos, as histórias, os amores e os temas que ele aborda continuam muito atuais”.

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Do rap ao trap, novos beats para canções atemporais

A conexão com a música urbana sustenta boa parte de “Chico 2.0”. MC Cabelinho, MC Livinho, Dexter, Tasha & Tracie, TZ da Coronel, Don L e VANDAL levam suas referências para músicas que já pertencem ao imaginário popular brasileiro.

Um exemplo é “Construção”, obra-prima de 1971 conhecida pelas frases intercambiáveis e pela imagem do trabalhador que cai do andaime, que aqui reúne Dexter, Maurício Pazz e MC Livinho, que também assina sozinho a releitura de “Pivete”. Já Tasha & Tracie levam sua linguagem para “Deus Lhe Pague”.

VANDAL e Don L dividem os vocais de “O Que Será (À Flor da Terra)”, composição de 1976 em parceria com Milton Nascimento e uma das preferidas do próprio Chico, com participação de Milton e do compositor na faixa. Don L falou sobre a releitura:

Recebi o convite muito honrado, pra interpretar uma música muito importante na história do Brasil. Resolvi fazer uma interpretação mais malandra, mais rap, sempre citando a melodia original, ao lado do VANDAL, que é uma voz das ruas de Salvador”.

VANDAL retribuiu o elogio:

O que mais me toca é poder interpretar uma faixa com Milton Nascimento e o próprio Chico Buarque. Essa conexão entre dois artistas do Nordeste era muito esperada e, para mim, representa uma entrega muito especial ao nosso povo.”

Em “João e Maria”, parceria de Chico com Sivuca, Júlia Mestre divide os vocais com TZ da Coronel, aproximando diferentes regiões e gerações da música brasileira em uma só faixa.

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Da nova MPB ao R&B, outras vozes reinventam o repertório

O projeto também reserva espaço para artistas ligados ao R&B, ao pop e à nova MPB. Xênia França, Budah, Grag Queen, Júlia Mestre e Bela Maria revisitam outros momentos da obra a partir de referências próprias.

Em “Cálice”, parceria de Chico com Gilberto Gil de 1973, Xênia França e MC Cabelinho assumem uma faixa que chegou a ser censurada ainda no evento Phono 73, quando os microfones dos dois compositores foram desligados no momento da apresentação, e só ganhou gravação oficial em 1978, com Milton Nascimento dividindo os vocais com Chico.

Xênia, que já havia se aproximado do repertório de Chico em uma homenagem anterior, celebra a chance de atualizar as canções:

Chico é um dos grandes mestres da música e da cultura brasileira, e sua obra sempre esteve no meu imaginário. Adorei a proposta de trazer suas crônicas para o presente, mostrando como elas continuam atuais na voz de artistas contemporâneos.”

“Geni e o Zepelim” ganha uma leitura assinada por Grag Queen, que traz para a canção elementos de seu próprio universo como artista drag. Fechando esse recorte, Bela Maria revisita “Meu Caro Amigo”, parceria de Chico com Francis Hime que, segundo ela, faz parte de sua própria formação musical.

Para os idealizadores do projeto, Chico 2.0 também é uma declaração sobre o lugar da música popular brasileira no presente. Celso Athayde, fundador da CUFA, descreve a direção artística do álbum como uma responsabilidade com a própria história da música nacional:

Os grandes clássicos do gênero sempre beberam na fonte da cultura popular. O que estamos fazendo aqui é dar continuidade a essa linhagem, garantindo que a nova geração de artistas e ouvintes ocupe esse espaço com propriedade, qualidade técnica e autonomia narrativa.”

Preto Zezé, presidente da CUFA, reforça a leitura de que o projeto não é um exercício de saudosismo:

O conceito de Música Popular Brasileira precisa acompanhar a velocidade e a estética do Brasil de hoje. Nossa direção artística partiu do princípio de que a obra de Chico Buarque, por exemplo, não pertence a um grupo seleto: ela é fruto da vivência popular. Este projeto não é um resgate nostálgico, é uma afirmação de futuro.”

Fábio Almeida completa destacando o processo coletivo por trás das escolhas de artistas e faixas, pensado como “um encontro entre gerações, linguagens e diferentes formas de fazer música”. Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil, exalta Chico como “um dos maiores artistas vivos da cultura popular brasileira” e celebra o fato de que “novos caminhos podem nascer a partir de uma obra tão rica”.

Ouça a primeira parte de Chico 2.0 logo abaixo!

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Felipe Ernani

Chico Buarque ganha releituras de rap, trap e R&B em “Chico 2.0”


LR

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